Se você ainda é uma Testemunha de Jeová, é provável que já tenha feito uma das perguntas a seguir àqueles que se opõe à sua religião, em geral tratados como "apóstatas", embora no caso da dissidência isso nem sempre se aplique. Se este for o seu caso, leia as respostas e medite nelas.
TÓPICOS
4. Não são as outras Bíblias falsas, por retirarem o nome de Jeová?8. O que acontece depois da morte?
1. Se as Testemunhas de Jeová não são a religião verdadeira, então qual é?
A carta de Tiago 1:27 (ACF) diz: “A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se incontaminado do mundo.” Tiago estava preocupado com o exercício prático da fé cristã, e sua carta trata exatamente disso. Portanto, exercer a fé cristã envolve não apenas um complexo de doutrinas, mas um envolvimento real em ajudar o próximo, independentemente de quais sejam as suas crenças, como vemos na parábola do bom samaritano (Lucas 10:33-37). É importante ter em mente que religião é algo maior que denominação. Por exemplo: Igreja Batista, Igreja Presbiteriana, Igreja Metodista e Igreja Anglicana são todas denominações que fazem parte de uma mesma religião, o cristianismo. Cada uma delas tem formas diferente de ver certos assuntos, mas todas têm a Cristo como Salvador e a Bíblia como regra de fé e prática. A religião verdadeira é o cristianismo multiforme (Veja 1 Co 9:22). Isso não significa, porém, que devamos deixar de nos reunir em uma religião organizada (He 10:24, 25).
2. Então não devemos pregar de casa em casa?
Os primeiros discípulos de Cristo pregavam o evangelho do reino, ou seja, proclamavam Cristo como o prometido descendente, o rei dos Judeus (Mateus 2:2). Já os cristãos tinham a missão de dar testemunho de Jesus, não só entre o povo de Israel (Judeia e Samaria) mas a todo o mundo, cumprindo o papel de portadores de luz em meio a um mundo pagão (Atos 1:8). O evangelho do reino começou a ser pregado por João Batista, mas de Atos 2 para cá nós pregamos para que as pessoas aceitem a Jesus como seu único Senhor e Salvador, aquele que morreu e foi ressuscitado para nos salvar. Entendemos que esse é o verdadeiro evangelho de nossos dias, não uma mensagem de um reino e paraíso na Terra. (Veja 1 Timóteo 6:15, Atos 16:30, 31, João 5:23)
Além disso, não há nenhuma evidência de que os primeiros cristãos pregassem literalmente de casa em casa. Antes, o que vemos em Atos dos Apóstolos é que os cristãos se reuniam aos domingos em casas, para partilhar o pão e compartilhar a palavra. Como era comum naquela época, pessoas poderiam se achegar para ouvir a instrução, e assim era feita a pregação (Atos 20:7-11). E era exatamente dessa maneira que Paulo levava a palavra até os confins do mundo conhecido, falando com pessoas em lugares públicos e dando sermões onde quer que lhe fosse dada hospedagem. Daí se formavam igrejas, grupos de irmãos que se reuniam da mesma forma, com o mesmo objetivo de se ajudar mutuamente, estudar a palavra e partilhar o pão. Nessas ocasiões também era recolhido o valor que cada um havia separado previamente para ajudar os necessitados ou mesmo missionários, como Paulo (1 Coríntios 16:2). O ato de "ir de casa em casa", portanto, não se referia a bater em cada porta, mas obter hospedagem e ali ensinar aos da casa e a outros. Quando vemos que alguém foi a uma casa específica, este foi por designação de Deus; é o caso de Pedro quando visitou Cornélio e este já o estava esperando, não foi uma visita inesperada (At 10:19-24). Logo, nosso dever é ajudar pessoas ao nosso redor a se converterem a Cristo, não em arrastá-las para uma ou outra denominação. No geral, as denominações cristãs saudáveis sabem disso e não procuram arrebanhar membros umas das outras.
3. Mas Tiago 2:26 diz que a fé sem obras está morta, não significa que precisamos de obras?
Não! Para entender um texto corretamente sempre é necessário ver todo o contexto. A organização à qual pertencíamos é mestre em fazer esse tipo de aplicação e quando estamos lá dentro, por uma questão de confiança, simplesmente aceitamos como verdade aquilo que nos é ensinado, sem um questionamento profundo. Para entender o contexto, a primeira coisa a fazer é entender de que se trata a carta ou livro em que o texto aparece.
A carta de Tiago tem ênfase ética e moral, muitas vezes espelhando as duras denúncias que Jesus fazia contra a hipocrisia religiosa de seu tempo. Entre os três Tiagos mencionados no NT, o mais provável autor é Tiago irmão de Jesus, também chamado de Tiago, o Justo. Levando em conta seu apelido e a proximidade com nosso Senhor, faz sentido a enorme semelhança entre a carta de Tiago e a personalidade de Cristo, sua ênfase na ética, na luta contra a hipocrisia e na justiça. É categorizada como uma Carta Geral, e mostra uma preocupação quanto a uma compreensão errada do que é a verdadeira religião (Holman, 2012). Esse é o contexto mais amplo da carta de Tiago, o que já nos dá uma ideia do que ele quis dizer com esse texto. Em um contexto mais local, basta lermos todo o capítulo 2 para vermos que Tiago ataca a hipocrisia religiosa no meio cristão. Ele fala sobre fazer acepção de pessoas de acordo com suas posses (v.2-9) e sobre não agir com misericórdia (v.12). Em seguida, ele raciocina que de nada adianta a pessoa dizer que tem fé mas agir dessa maneira (v.14). Depois, ele dá outro exemplo muito importante para nosso entendimento:
“Se uma irmã ou um irmão estiverem nus, carentes do alimento diário, e algum de vós lhe disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, qual será o proveito? Assim é a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.” Tiago 2:15-17 (BKJ)
Perceba que aqui ele dá como exemplo aqueles que não dão ajuda prática a quem precisa. Estes não estão praticando a religião verdadeira, e sua fé é uma fé falsa, está morta em si mesma porque não os motiva a terem ações práticas em ajudar os seus semelhantes. E assim Tiago prossegue com outros exemplos, até concluir no versículo 26, enfatizando mais uma vez que a fé sem obras está morta. De modo algum isso se refere a pregar de casa em casa, algo que os primeiros cristãos não faziam.
Será que as Testemunhas de Jeová tem aplicado esse conselho? Quando ocorrem catástrofes, na maioria das vezes a organização apenas “coordena” os arranjos humanitários. Apesar disso, a organização continua a solicitar donativos para esse fim. Cabe lembrar que apenas os considerados “exemplares”, isto é, “com um longo histórico de serviço fiel” recebem ajuda (“Organizados” pág. 129 § 14-15).
4. Não são as outras Bíblias falsas, por retirarem o nome de Jeová?
Não. Na Bíblia, e em especial no AT, nome se refere a reputação. Quando Deus indica seu nome como “Eu Sou” (YHWH), isso mostrava sua superioridade sobre os deuses egípcios, os quais possuíam nomes ligados às suas características, de modo que o verdadeiro Deus — o Deus hebreu — se sobressai a todos eles. O nome Jeová, contudo, foi inventado apenas por volta do ano 600 d.C., e sua formação é considerada impossível por diversos especialistas em filologia. Note que as Testemunhas de Jeová admitem que este não é o nome de Deus:
| O Nome Divino que durará para sempre - pág. 8 (edição de 1986) |
Não há mal algum em ter uma atitude reverente para com o nome de Deus. Na verdade, isso é até melhor do que usar o Seu nome em humanos pecadores, afinal, quem nunca ouviu uma chacota com o nome Jeová por causa da “religião” Testemunhas de Jeová? Os judeus evitavam pronunciar esse nome sem necessidade, em harmonia com Ex 20:7. A organização se gaba de ter restaurado o nome de Deus, mas como ela mesma admite no apêndice A4 de sua Tradução do Novo Mundo (2015), muitos eruditos consideram o nome correto como sendo Iavé. O mesmo apêndice também alega que esse nome era pronunciado de maneira corriqueira entre o povo, o que não parece ser o caso, tanto que a pronúncia correta se perdeu. O nome era pronunciado como Adonai (Senhor) nas leituras públicas.
É interessante notar que este é o motivo pelo qual muitas traduções costumam usar Senhor em versalete, exceto em passagens bem específicas como o Sl 83:18, onde o uso de “Senhor” dificultaria o entendimento. Em geral, as traduções lidam de forma responsável com esse nome, sendo coerente com o que era praticado nos tempos pré-cristãos. A popular tradução King James Atualizada em português usa nesta passagem a expressão “só tu, cujo Nome é Eterno”, traduzindo o sentido do nome de Deus e tornando mais claro a sua soberania nesse texto. Em outras passagens a tradução adota “YAHWEH”, considerado o nome mais correto por muitos especialistas, e que contém em si as 4 letras transliteradas do tetragrama divino.
Novo Testamento
Embora existam raras opiniões divergentes, é ponto pacífico que nem o nome Jeová em sua forma grega, nem o tetragrama divino aparecem no Novo Testamento. Aparentemente de forma a corroborar com sua teologia peculiar que enxerga Cristo como sendo um mero anjo, as Testemunhas de Jeová inseriram o nome “Jeová” na maioria dos lugares onde havia a palavra “Senhor” (em grego: Kyrios). Vejamos apenas um exemplo de manipulação, no texto de 1 Coríntios 10:9.
| 1 Coríntios 10:9 na TNM |
Como você pode perceber, esse texto fala sobre não colocarmos Jeová à prova, como alguns no passado fizeram. Para entendermos essa manipulação, volte ao versículo 1 e leia com atenção até o versículo 9. Você vai notar logo nos versículos 1 a 4 que o contexto fala sobre o povo que seguia Moisés no deserto. O contexto também deixa claro que era Jesus quem estava por trás da saída milagrosa dos hebreus do Egito, e do fogo e da coluna de fumaça que os seguia. A Tradução do Novo Mundo (2015) utiliza o texto crítico dos eruditos Nestlé-Aland. Agora note como aparece o verso 9 nos manuscritos gregos trabalhados por esses autores: não se fala sobre colocar Jeová à prova, mas sim colocar Cristo à prova! Isso é o que está no texto grego e isso é o que está em harmonia com o contexto! Existem muitos outros exemplos, dezenas deles, mas isso já é suficiente para dizer que se existe uma Bíblia com graves problemas esta é a Tradução do Novo Mundo!
| Texto grego base da TNM. Note a palavra Ξριστος (Cristo) |
5. Se eu sair das Testemunhas de Jeová, para onde eu iria (João 6:68)?
Muitas Testemunhas citam esse texto sem notar que ele não fala sobre ir “para onde” e sim “para quem”. Jesus atribuiu exclusivamente a si os títulos de caminho e porta estreita (João 14:6; Mateus 7:14 [compare com João 10:9]). Em contraste com isso, veja o que diz a revista A Sentinela, de 01 de outubro de 1994, pág. 8:
“Assim como as profecias bíblicas apontavam para o Messias, elas também nos encaminham ao unido corpo de cristãos ungidos das Testemunhas de Jeová, que serve atualmente qual escravo fiel e discreto. Todos os que desejam entender a Bíblia devem reconhecer que a ‘grandemente diversificada sabedoria de Deus’ só pode ser conhecida através de seu canal de comunicação de Jeová, o escravo fiel e discreto. – JOÃO 6:68”
Conforme a revista editada pelas Testemunhas de Jeová declara, a única forma de conhecer a Deus é através das informações providas pela sua liderança religiosa, o escravo fiel e discreto. Mas isso não significa que devemos estar apartados de toda e qualquer denominação religiosa. Aqueles que serviam a Deus no passado não estavam desconectados de uma estrutura religiosa, mas estes faziam parte da religião cristã. Atos 11:26 (NAA) diz: “E, quando o encontrou, levou-o para Antioquia. E, durante um ano inteiro, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão. Em Antioquia, os discípulos foram, pela primeira vez, chamados de cristãos.” Portanto, vemos que:
- Os cristãos primitivos se reuniam;
- Cada local de reunião era chamado de igreja;
- Nessas reuniões se pregava, isto é, se ensinava o povo;
- Aquele grupo foi chamado de cristão, deu-se aí a nomenclatura daqueles que seguem a Cristo e que, assim, configuravam uma nova religião, o cristianismo.
Quando Jesus diz em Mateus 28:11-30 para as pessoas “irem até ele”, o que ele estava a fazer era justamente contrapor-se ao sistema judaico (veja Hebreus 13:13-16), que impunha pesadas cargas sobre os ombros das pessoas, da mesma forma como certos grupos religiosos atuais impõe a seus membros. Logo, a questão pode ser resumida em deixar os lugares onde Cristo não está e ir até onde ele está, ou seja, onde as verdades essenciais do evangelho são pregadas. Isso não significa que as denominações cristãs são perfeitas, pelo contrário. Na própria Bíblia encontramos o exemplo da igreja em Corinto, que era tolerante com um homem que mantinha relações com a madrasta. E nas cartas de Apocalipse, vemos igrejas que estavam envolvidas até mesmo com idolatria, ainda assim Cristo não ordenou que as pessoas abandonassem aquelas igrejas, mas que a igreja se arrependesse, dando meia volta no caminho em que estava.
Assim, o que existem são igrejas saudáveis, denominações que apresentam as verdades fundamentais das Escrituras sem legalismo nem sectarismo, onde você pode aprender mais sobre Deus, louvar a Jesus e viver em comunidade, sem que a denominação exerça controle sobre sua vida. E o que se deve evitar são igrejas falsas, onde o objetivo é obter lucro fácil e controlar cada aspecto da vida dos membros. Também devemos evitar as seitas, que além dos itens anteriores, se consideram como única religião verdadeira, frequentemente demonstrando certa intolerância para com as demais. Elas costumam ter ensinos que desviam as pessoas de Cristo, impõe alguma autoridade extrabíblica, normalmente através de publicações próprias de ensino e líderes carismáticos iluminados, ambos considerados como fonte inquestionável de autoridade.
Apesar disso, o mais importante para quem está deixando a denominação das Testemunhas de Jeová é jamais correr em busca de uma igreja onde se reunir, mas primeiramente ir a Cristo, reconhecendo-se perante ele como pecador e dando-lhe o controle de sua vida. Suplique para que ele dirija seus passos e ilumine seu entendimento. Buscar associação cristã e passar pelo árduo processo de encontrar um local saudável para adorar a Deus em conjunto com sua nova família na fé é um passo maior que vai exigir tempo e até mesmo terapia para superar os traumas que a antiga denominação lhe causou, principalmente os que se referem a se abrir para novas amizades, sentar e ouvir uma exposição bíblica sem que isso lhe traga qualquer desconforto. Lembre-se de que não é o lugar em que você está que irá lhe salvar, mas sua escolha mostra o seu comprometimento como cristão em ser um membro ativo do corpo de Cristo, que não despreza outras partes desse corpo, mas age em conjunto para a sua edificação.
6. Se essa não é a verdade, qual o motivo de ensinos falsos como a trindade?
A resposta simples e direta é que este não é um ensino falso, e isso normalmente choca e causa extremo desconforto em quem é ou foi Testemunha de Jeová, e talvez você esteja passando por isso exatamente agora. A grande dificuldade com a trindade é que ela não mexe com a nossa confiança na organização ou no corpo governante: ela penetra profundamente naquilo que nós cremos a respeito de Deus, no nível mais fundamental da nossa fé. Além disso, você precisa ter em mente que a trindade não é uma proposição simples, que você encontra em um único versículo de forma direta, como “não matarás”.
A trindade está em outro nível — um nível mais abstrato, como a eternidade de Deus. As várias afirmações sobre a natureza eterna de Deus, como Alfa e Ômega, princípio e fim, nos levam à conclusão de que Deus sempre existiu e sempre existirá. Todavia, por mais que essa seja uma conclusão lógica, ela não é plenamente compreendida, pois para nossa mente tudo necessariamente precisa ter um início; afinal, nós vivemos em universo em que tudo surgiu em algum momento, em uma linha imaginária de tempo que sempre caminha inexoravelmente para o futuro. Outrossim, com respeito à natureza do Deus trino ocorre a mesma coisa. Um estudo mais aprofundado das Escrituras revela uma dança cósmica entre três distintos personagens que se fundem em um único Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. A conclusão lógica é que a Bíblia revela progressivamente um Deus que é trino em sua natureza, ainda que não compreendamos exatamente como isso pode ser possível na prática.
Os raros grupos religiosos que se opões à trindade usam de argumentos bem conhecidos, que acabaram por fazer parte de um senso comum entre aqueles que fizeram parte desses grupos. Entre eles a ideia equivocada de que a trindade foi "inventada" pela igreja católica no concílio de Nicéia ou de que o fato dessa palavra não aparecer nas Escrituras de alguma maneira prova que não se trata de um ensino bíblico. Esses argumentos são facilmente refutados, mas devido ao propósito dessa FAQ abordaremos em artigo específico futuramente.
Entender a trindade, tanto quanto humanamente possível, nos ajuda a ter uma visão mais ampla do plano de salvação, além de nos fazer apreciar ainda mais a obra salvífica de Cristo na cruz do calvário, entendendo a profunda dor do Pai em pela primeira vez ver-se apartado do Filho, parte intrínseca do seu ser. Desconsiderar a trindade, por outro lado, levaria a inconsistências catastróficas na doutrina cristã, surgindo à partir daí ensinos sectários e anticristãos, que enveredam-se mais pelas filosofias humanas do que pela Bíblia.
7. O que dizer do inferno, não parece razoável concluir que ele não existe?
Na verdade não. A Bíblia é bastante clara com respeito a existência deste lugar de tormento, embora não possamos saber exatamente o que ele significa na prática. A chave para concluirmos que o inferno existe está no contraste que a Bíblia faz entre o inferno e a vida dos salvos, nos novos céus e nova Terra. Vemos isso em Dn. 12:2 que diz que alguns serão ressuscitados para a vida eterna enquanto outros para vergonha e desprezo eternos. Assim sendo, vemos aqui uma igualdade: da mesma forma que a vida dos salvos é eterna, o desprezo dos condenados também é. Se dissermos que o inferno não é eterno então, ao menos nessa perícope, teremos de afirmar que a vida dos salvos em Cristo também não é eterna. E em Mt 25:46 vemos essa igualdade de forma ainda mais explícita: "E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna". Como podemos negar uma declaração tão cristalina como essa e atribuir a ela sentidos simbólicos? Se entendermos a primeira parte da sentença como simbólica, logo a segunda parte, que trata do destino dos salvos, também deve ser interpretada da mesma maneira por uma questão de coerência hermenêutica. E como os salvos poderiam ser chamados de salvos, se sua salvação fosse então meramente um simbolismo, uma salvação temporária?
Um outro problema surge ao alegarmos que o inferno é simplesmente a morte eterna dos ímpios, doutrina conhecida como aniquilacionismo, que no caso das Testemunhas de Jeová é ligeiramente diferente. Jesus, que foi quem mais falou sobre este tema na Bíblia, sempre atribui a esse lugar trevas, escuridão, choro e ranger de dentes (Mt. 8:12). Ora, se o inferno representa apenas a morte eterna, um estado de inexistência, qual o sentido de atribuir aos que nele estão coisas como choro e pranto — atividades de seres que certamente estão vivos e conscientes? Ao invés disso, parece mais sensato ficar com aquilo que a Bíblia diz, que se trata de um lugar de "trevas exteriores", longe dos salvos e de Deus, onde os condenados sofrem em graus variados conforme o que fizeram na Terra. É curioso como muitos preferem que certos criminosos sejam condenados à prisão perpétua pelos crimes bárbaros que cometeram, uma vez que entendem que a morte seria uma punição muito branda, mas ao mesmo tempo se escandalizam e acham injusto Deus condenar pecadores a um tormento eterno. Ora, não é um tormento para o condenado ser privado da liberdade por toda a vida?
A dificuldade de muitos com a doutrina do inferno é a mesma encontrada com a eleição, doutrina bíblica que diz que Deus de antemão escolheu e predestinou aqueles a serem salvos. Sem maior aprofundamento tais coisas parecem contradizer a imagem do Deus de amor idealizada dentro de algumas seitas, mas o fato é que Deus equilibra seu amor com sua justiça; o mesmo Deus que diz "Deixe que as crianças venham a mim" (Mt 19:14), diz também "[...] mata homens e mulheres, crianças e recém-nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos!" (1Sm 15:3). Se há algo que podemos ter certeza é de que podemos confiar na justiça divina, e isso nos deve trazer tranquilidade, conquanto busquemos ao Senhor com um coração sincero. Além disso, embora seja apenas uma especulação, é conveniente lembrarmos que o tempo é também uma criação de Deus, e o fato dele estar acima do tempo, sendo eterno, demonstra isso. O aprisionamento dos ímpios no inferno exigirá algum tipo de corpo que resista ao tempo, assim como acontece com as criaturas espirituais demoníacas que estarão naquele lugar. Então pode ser que a passagem do tempo para os condenados não se dê da mesma maneira que se dá conosco, e é preciso ter isso em mente antes de considerar que seria injusto deixar tais pessoas ali para sempre, pois estaríamos imputando uma noção humana e carnal de tempo a uma realidade que pode ser bem diferente do mundo natural com o qual estamos acostumados.
Outro aspecto que ressalta a justiça de Deus é o fato de que a Bíblia dá a entender que existirão níveis diferentes de castigo no inferno. Assim, um incrédulo que foi um forte ativista contra Deus, mas que inconscientemente seguia certos padrões divinos, talvez tenha um destino bem diferente de um ocultista cruel e assassino. Lc 12:47, 48 fala de uma "surra mais severa" ao servo que conhecia a vontade do mestre e ainda assim não a fez; Mt 10:15 diz que algumas cidades sofreriam mais que Sodoma e Gomorra no dia do Juízo — o mesmo com respeito a Tirom e Sidom (Mt 11:21, 22); Já Rm 2:4,5 diz que alguns estariam acumulando ira para o Dia do Juízo.
John Piper identifica duas razões explícitas pelas quais alguns sofrerão mais que outros, e três razões implícitas que derivam dessas duas explícitas:
- Quanto mais luz você tem, mais conhecimento você tem, mais verdade você tem, pior é o seu pecado e punição ao rejeitá-lo.
- Quanto mais bondade Deus lhe mostrar, não apenas em dar-lhe luz na verdade, mas em, por exemplo, dar-lhe muitos prazeres imerecidos nesta vida, mais dolorosa será sua incredulidade e pecado, e pior será sua punição.
- Se a rejeição de mais e mais luz e bondade piorar o sofrimento no inferno, deduzo que quanto mais dias você fizer isso, pior será. Em outras palavras, o tempo entra em cena. Dia após dia após dia, você continua rejeitando luz após luz após luz, bondade após bondade após bondade. Quanto mais isso durar, piores serão as coisas.
- Existem tipos de pecados que são mais hediondos, mais destrutivos, mais blasfemos do que outros, de modo que não apenas a quantidade de pecados com o tempo piora as coisas, mas também o grau de feiura e horror, hediondo e blasfêmia também aumenta a sofrimento.
- Em tudo isso, há um grau maior ou menor de destreza, arrogância – maior arrogância, maior desafio e insolência consciente e, portanto, um maior grau de punição.
O inferno é uma realidade bíblica e, longe de nos causar pavor, essa realidade deve nos mover para mais perto de Cristo, aumentando nossa sensibilidade à sua palavra, de modo a não endurecermos nosso coração nem praticarmos deliberadamente o que é mau.
8. O que acontece depois da morte?
Para falarmos sobre o que acontece depois da morte é primeiro necessário compreender o que realmente é o homem. A Bíblia frequentemente se refere ao homem com respeito ao seu corpo físico e a sua alma, sendo que esta concentra suas emoções e sua conexão com o divino: "Não temais aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma" (Mt 10:28); "Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor, assim no corpo como no espírito" (1Co 7:34); "Como o corpo sem o espírito está morto, assim a fé sem as obras é morta" (Tiago 2:25).
A conclusão mais honesta a que podemos chegar é de que, no mínimo, o homem é composto por um corpo físico e uma parte imaterial chamada de alma ou espírito. Uma dificuldade aqui é chegar a uma conclusão entre uma dicotomia (duas partes, corpo e alma) ou tricotomia (três partes, corpo, alma e espírito). Cristãos primitivos como Irineu e Apolinário de Laodicéia acreditavam numa tricotomia. No século XIX muitos escritores apoiaram a tricotomia, ponto de vista que também é defendido pela bem conhecida Bíblia de Estudo Scofield. Note, porém, que a Bíblia frequentemente usa alma e espírito de formas praticamente idênticas, o que nos leva a entender que existe apenas uma parte imaterial, que pode ser chamada tanto de alma como de espírito, portanto uma dicotomia.
Na suposta parábola sobre o rico e Lázaro, Jesus mostrou que existe consciência no domínio dos mortos (Lc 16:22-25). As Testemunhas de Jeová alegam que se trata de uma simples parábola, mas este não nos parece ser o caso. A crença comum dos judeus era da continuidade da existência após a morte, e a história do rico e de Lázaro reflete exatamente este conceito. Ora, se esse conceito fosse errado por qual razão Jesus não apenas permitiria que as pessoas (incluindo seus discípulos) continuassem acreditando no erro como ainda incentivaria a mentira, contando uma parábola que apoiava tal ideia? Portanto, a doutrina bíblica é de que os mortos continuam existindo em um domínio imaterial após a morte física. Textos que se referem aos mortos como dormindo e inconscientes devem ser entendidos com respeito ao corpo material apenas. É o caso de Ec 9:5 amplamente citado pelas Testemunhas de Jeová em defesa da ideia de que a alma morre. Porém, entendemos que todo o livro de Eclesiastes é centrado nesta vida material, na vaidade da vida terrena (debaixo do sol), e não podemos aplicar o texto isoladamente. Salomão meditava sobre os fúteis esforços humanos, ele não estava revelando um segredo espiritual.
A Bíblia nos diz que quando alguém morre sai dele a alma ou espírito (Gn 35:18; 1 Rs 17:21; At 7:59). Ao mesmo tempo, temos passagens como a de Fp 1:22, 23 onde Paulo deixa claro que preferia partir (morrer) para estar com Cristo, a continuar vivendo neste mundo material. Temos Lc 23:43 onde Jesus diz ao pecador ao seu lado na cruz que naquele mesmo dia este homem estaria com ele no paraíso, 2Co 5.6-8 onde vemos a possibilidade de estarmos ausentes do corpo, através da morte, e assim presentes junto a Cristo. Essas e muitas outras passagens nos mostram que aparentemente existe um estado intermediário entre a morte e a ressurreição, que é chamado de Sheol, em hebraico, ou Hades, em grego.
Ora, mas se uma parte imaterial do homem vai viver com Cristo nos domínios celestiais, qual a necessidade de uma ressurreição? O estado completo do homem é alma e corpo integrados, por isso a ressurreição é necessária. Embora as almas dos crentes possam viver em gozo com Cristo após a morte, este ainda é um estado incompleto do ser. A morte, portanto, nada mais é do que a quebra dessa integração, uma separação. A Bíblia fala em três tipos de morte, sempre ligadas ao conceito de separação:
- Morte física: a separação entre corpo e alma, o primeiro voltando ao pó e a segunda voltando a Deus (Ec 12:7; Gn 3:19)
- Morte espiritual: a separação entre o homem e Deus por meio do pecado (Is 59:2; Ef 2:1)
- Morte eterna: também chamada de segunda morte, é a separação definitiva entre o homem e Deus, eternamente.
Morte, portanto, é sempre sinônimo de separação, divisão.
9. Jesus é um anjo, como aprendemos na organização?
Não. A ideia de Jesus como sendo um anjo não era compartilhada pelos primeiros cristãos, incluindo os apóstolos, por mais que alguns grupos tentem dizer o contrário. Note o que diz Colossenses 2:8,9
Não permitam que outros os escravizem com filosofias vazias e invenções enganosas provenientes do raciocínio humano, com base nos princípios espirituais deste mundo, e não em Cristo. Pois nele habita em corpo humano toda a plenitude de Deus. (NVT)
O alerta é claro: os cristãos não deveriam se deixar escravizar por filosofias vazias e invenções humanas, mas quais filosofias e invenções seriam essas? Embora a filosofia judaica certamente fosse preocupante, em vista das tendências judaizantes existentes no cristianismo primitivo, o contexto sugere que Paulo estava se referindo a uma corrente filosófica específica, o gnosticismo. Albert Barnes, teólogo do século XIX, comenta que "a filosofia grega prevaleceu muito tempo nas regiões ao redor de Colossos, e talvez também a filosofia oriental ou gnóstica. [...] Elas consistiam em muitas especulações a respeito da natureza da existência divina; e o perigo dos colossenses era que eles se baseassem mais nas deduções desse raciocínio ilusório do que no que haviam sido ensinados por seus professores cristãos."
Note o uso da conjunção coordenativa "pois", assumindo a função de causa ou razão. Essa conjunção indica a razão do que foi dito na oração anterior. Assim, Paulo insta os cristãos em Colossos a estarem alertas quanto a essas filosofias POIS em Cristo habita a plenitude da divindade. O que ele faz aqui é justamente afirmar que Cristo é plenamente Deus, contrariando o que dizia a filosofia gnóstica, que considerava que Jesus não poderia ser Deus. Dessa feita, quando vemos as Testemunhas de Jeová dizerem que Jesus não é plenamente Deus, mas um anjo que atua como um deus menor (Arcanjo Miguel), elas estão simplesmente voltando às mesmas heresias combatidas por Paulo há mais de 2 mil anos atrás. Tempos depois, já na Alta Idade Média, surge aquela que seria conhecida como uma das maiores heresias de todos os tempos, o arianismo — nome que deriva de seu defensor, o bispo Ário.
Ário viveu em Alexandria, centro intelectual da Ásia Menor. Ele acreditava que Cristo era um ser criado, portanto não podia ser plenamente Deus. Suas ideias resultaram na convocação de um sínodo em 318 d.C. e na sua condenação como herege. A posição ortodoxa sobre a trindade por fim foi reafirmada no concílio de Nicéia em 325 d.C. As ideias arianas continuaram a ser combatidas principalmente por Atanásio, seu ferrenho opositor, e outros sábios como Hilário e Tomás de Aquino, os três considerados santos pela Igreja Católica Romana. O arianismo e semiarianismo por fim caíram no esquecimento, até serem reavivados por denominações como as Testemunhas de Jeová e Adventistas.
Há muita interpretação equivocada por trás dessa heresia, e essa resposta não pretende ser uma abordagem exaustiva sobre o tema, pois entendo que apenas o fato deste argumento já ter sido combatido pelo apóstolo Paulo deveria ser suficiente para encerrar o assunto. Ainda assim, seguem alguns textos:
- Jesus é criador (João 1:3 ), Miguel é criatura (Cl 1:16)
- Jesus é Adorado por Miguel (Hebreus 1:6), Miguel não pode ser adorado (Ap 22:8-9)
- Jesus é o Senhor dos Senhores (Ap 17:14); Miguel é príncipe (Dn 10:13)
- Jesus é Rei dos Reis(Ap 19:16); Miguel é príncipe dos Judeus (Dn 12:1)
No antigo testamento vemos muitas referências ao anjo do Senhor e, ao mesmo tempo, de que este anjo era Deus. O anjo, neste sentido, é apenas uma forma de se referir à aparição de Deus (teofania), contudo Jesus não é e nunca foi um anjo ou arcanjo.
10. Por que vocês criticam as Testemunhas de Jeová e não falam de outras religiões?
TODAS as denominações cristãs tem em seu meio pessoas que não são crentes verdadeiros, nunca foram tocadas e transformadas pelo Espírito Santo, e com isso estão sujeitas à escravidão ao pecado, às vezes em suas formas mais abjetas. Contudo, há em nossa visão três diferenças básicas entre estas denominações e a organização das Testemunhas de Jeová:
- Denominações sérias lidam de maneira responsável com casos que envolvem atividade criminosa de seus membros. Há plena colaboração com as autoridades e reconhecimento público de eventuais erros na condução dos casos.
- Denominações sérias estão menos sujeitas a a pecados crassos. Onde há pessoas realmente convertidas a Cristo, a incidência de pecados sérios é muito menor. Isso inclui não apenas abusos de natureza sexual, como também adultério, vício em pornografia e outros males.
- Denominações sérias não se intitulam como "religião verdadeira". Entende-se que o cristianismo é a religião verdadeira e todos os seus verdadeiros praticantes fazem parte do corpo místico de Cristo, independente do local em que se reúnem e de suas divergências doutrinárias.
Além disso, claro, falamos daquilo que conhecemos com mais profundidade. Seria muito complicado identificar e apontar o que entendemos como sendo erros em denominações nas quais temos um conhecimento meramente teórico e/ou limitado. Existem pessoas que se propõe a discutir erros que encontraram em suas denominações, em todas elas, e isso é normal e faz parte da liberdade de expressão. Com certeza existem pessoas que criticam denominações pelas quais temos apreço, e tudo bem!
Por fim, é importante lembrar que a maioria das Testemunhas de Jeová tem uma visão um tanto embotada sobre o cenário cristão, que é resultante basicamente de três fatores: 1) O ensino do grupo de que todas as religiões do mundo são falsas e integrantes da prostituta simbólica chamada em Apocalipse de Babilônia; 2) O forte desincentivo a que os membros consumam qualquer material de natureza religiosa que não tenha sido produzido pelo grupo e 3) O forte incentivo a uma rotina de leitura e estudo das publicações internas do grupo, que sempre reforçam ao membro que ele está "na verdade" e que deve sempre procurar fazer mais para Deus por trabalhar na sua religião aprovada. Na mente de qualquer Testemunha, portanto, tende a vigorar o estereótipo de uma igreja com pastores teologicamente despreparados, desonestos, ávidos por dinheiro e imorais. Isso nem de longe representa o que se observa em denominações sérias, muito menos a inteireza do cenário evangélico, embora seja fato que muitos tem dado um péssimo testemunho da Igreja de Cristo, incluindo pastores e sacerdotes.
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