Muitas Testemunhas de Jeová se encontram nesse dilema: o que fazer agora que não acredito mais que esta é a “única religião verdadeira”. É claro que não podemos fornecer uma receita que sirva para todas as pessoas, mas aqui vai uma tentativa de trazer alguma direção àqueles que enfrentam esse conflito.
1. Dê a Cristo o lugar de honra na sua vida.
Independente dos motivos que o(a) levaram a sair, é vital reconhecer que a organização das Testemunhas de Jeová coloca Cristo em um papel secundário em sua teologia. Filipenses 2:10-11 diz: “para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.”
Observe que todo joelho deve se dobrar ao nome de Cristo e que é assim que o Pai é glorificado. Não era no nome de Jeová que os demônios eram expulsos, mas no nome de Jesus (Lucas 10:17, Atos 16:16-18). E também não era do nome de Jeová que os discípulos eram testemunhas, mas sim de Cristo (Atos 1:8 — note que Isaias 43:10 é tirado de contexto pelas Testemunhas de Jeová). Isso deve nos mover a ter uma perspectiva correta sobre quem deve ser o centro da adoração na fé cristã. Quer adorar o Pai? Adore o Filho!
Compreendido isso, é hora de ter uma conversa franca com Ele, afinal, Ele morreu por você! Reconheça que, enquanto Testemunha de Jeová, o nome de Jesus era mais como uma espécie de palavra-chave a ser usada no final das orações do que alguém com quem você cultivava um relacionamento real em primeiro lugar. Entregue formal e verbalmente o controle de sua vida a Ele, declarando que, à partir de agora, quer ser totalmente guiado por Ele e que Ele é o Senhor (o dono) e Salvador da sua vida (Romanos 10:9-13 - ver nota abaixo*). Peça para que Ele abra o seu entendimento para as Escrituras, descortine o véu do entendimento (Ver 2 Corintios 3:14-15), e atue diretamente em sua vida e nas pessoas ao seu redor, conforme a Sua vontade.
Faça isso com sinceridade e você começará a notar a diferença em sua vida. Antes, você “se dedicou a Jeová”, agora é hora de declarar Cristo como seu Senhor e Salvador, que é o que as Escrituras realmente orientam.
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* Este texto fala de Jesus, a despeito da adulteração da Tradução do Novo Mundo
2. Estude de modo correto e mantenha a mente aberta
Suas crenças, talvez de décadas, foram desafiadas. Aquilo que você achava saber já não é mais uma certeza e sua mente lutará contra qualquer mudança. Isso afetará seu humor e seu corpo sofrerá. Haverá um processo de dissonância cognitiva no qual sua mente irá procurar se proteger do sofrimento e isso inclui uma rigidez de pensamento, isto é, uma dificuldade em aceitar pontos de vista diferentes ou aceitar que aquilo em que acreditou estava errado. Portanto, é necessário fazer um esforço consciente para separar aquilo que é lógico e razoável, do que é somente sua mente se negando a aceitar uma mudança de vida ou de conceitos.
A esse esforço consciente aplicado ao estudo das Escrituras, chamamos de “ler a Bíblia sem os óculos da Torre de Vigia”. Acredite, isso é muito mais difícil do que parece! Fomos ensinados a ver as Escrituras de uma forma peculiar, de tal modo que ao lermos certas passagens pode haver certa dificuldade em encontrarmos o seu verdadeiro significado e caímos invariavelmente em uma interpretação que não é de fato a nossa, mas a da organização da qual fazíamos parte. Nós vamos nos defender e dizer que o texto é claro, que “nós” entendemos assim, sem perceber que aquilo é na realidade um reflexo de uma visão da Escrituras que nos foi passada, e não de uma interpretação correta. Eu costumo comparar isso a uma prova de um concurso público: há sempre algumas perguntas de interpretação de texto e a resposta não é relativa. O candidato não pode responder simplesmente o que ele “acha”, mas sim o que o texto realmente quer dizer. Com as Escrituras é a mesma coisa: exceto em passagens específicas, como textos proféticos, há UMA interpretação correta, e encontrá-la exige seguir normas gramaticais e o contexto histórico, daí chamarmos isso de método histórico-gramatical. A essa se soma a iluminação do Espírito Santo (Efésios 1:18).
Uma boa Bíblia de Estudo é uma ferramenta importante nesse momento. Considere de mente e coração abertos os comentários e avalie-os com oração á luz do texto bíblico. Sempre que houver um ponto de discordância, pergunte-se: isso realmente não faz sentido de acordo com o texto bíblico que está sendo considerado ou eu estou tentando impor os meus conceitos? Foque apenas no texto, não tente buscar textos aqui e acolá para justificar uma posição diferente, ou você ficará ainda mais confuso(a). Comece do zero e veja se depois as coisas começam a fazer sentido. Você verá que, com o tempo, os seus argumentos tenderão a cair por terra e suas dúvidas e críticas serão respondidas à medida que avançar no estudo. Não tenha pressa. Aceite as afirmações que ainda não compreende ou concorda e siga em frente até que as coisas fiquem mais claras. Saber aceitar pontos de vista diferentes sem se estressar com eles, é sempre difícil para quem vem de uma cultura que se vê como detentora da verdade, a única religião verdadeira.
Outra dica é começar sua leitura da Bíblia através de uma outra tradução que não a TNM. Recomendamos a Nova Almeida Atualizada (NAA) e Nova Versão Transformadora (NVT), para uma leitura mais fluída, ou Almeida Revista e Atualizada (ARA) e King James (BKJ 1611), para uma leitura mais próxima dos textos originais. Comece pelo evangelho de João, com particular atenção a seu prólogo (João 1:1-18), e observe como a divindade de Cristo é belamente exposta pelo autor, como uma resposta ao proto-gnosticismo de sua época. Perceba, no livro de Atos, como a igreja nasce e se fortalece e nas muitas cartas é regada pelos apóstolos. Grande parte do que o cristianismo é, tanto em sua prática quanto em sua doutrina, está exposto nas epístolas.
Não se preocupe tanto com escatologia. Com o tempo você perceberá que o mais importante é o que você vai se tornar e não o que vai acontecer. A palavra cristão significa literalmente um pequeno Cristo, ou um imitador de Cristo. Portanto, o cristianismo é sobre ser salvo e, a partir daí, não apenas mudar seu caminho, mas ser transformado pouco à pouco à imagem de Cristo, até que Ele venha ou, mais provavelmente, que nos encontremos com Ele. Escatologia pode ser empolgante, mas não deve tirar nosso sono, afinal o que importa é sermos melhores pessoas e fazermos o nosso melhor para levar o evangelho quando oportuno (Deus é quem prepara as boas obras para nós; não precisamos nos preocupar com o que fazer — Efesios 2:8-10)
3. Comunidade e apoio
Busque o apoio de pessoas que compreendam sua situação, seja em grupos de apoio a ex-Testemunhas de Jeová, comunidades religiosas acolhedoras ou amigos e familiares de confiança. Compartilhar experiências e sentimentos pode ser fundamental neste processo. Mas cuidado: não é porque uma pessoa deixou a mesma religião que você que ela é boa companhia ou está realmente interessada no seu bem. Há muitos maledicentes cujo único interesse é em se vingar de sua anterior religião, da qual se sentem vítimas. Alimentar a mente de conteúdo carregado de mágoa e revolta, gritos e xingamentos pode ser muito danoso e levar a um ciclo vicioso e depressivo (Ver Salmos 37:7-9)
[...] não é porque uma pessoa deixou a mesma religião que você que ela é boa companhia ou está realmente interessada no seu bem.
4. Informação e questionamento
Pesquise sobre a história e doutrinas das Testemunhas de Jeová, buscando informações em fontes confiáveis e variadas. Questione suas crenças e permita-se explorar diferentes pontos de vista. Mas atenção: embora a maior parte das informações fornecidas por ex-membros sejam verdadeiras, há também especulações divulgadas como verdade. Prefira conteúdo que apresente fontes primárias.
Lembre-se: é importante desenvolver o pensamento crítico, mas toda crítica deve ter bases sólidas. Criticar porque simplesmente “não concorda” não contribui para o crescimento pessoal, amadurecimento e construção de conhecimento verdadeiro, pelo contrário, favorece a rigidez cognitiva e a ignorância.
5. Autocuidado e respeito
Esteja atento às suas necessidades emocionais e psicológicas durante este período de transição. Seja gentil consigo mesmo, respeitando seu tempo e espaço para processar as mudanças. Talvez seja necessário ter uma postura firme mas educada para com anciãos e outros membros que pressionem por um posicionamento.
6. Paciência e tolerância
Compreenda que este é um processo gradual e individual. Respeite o tempo necessário para se adaptar à nova realidade e construir uma nova identidade. Aprender a tolerar os que pensam diferente pode ser um desafio que exigirá paciência. O relato em Marcos 9:38-40 deve servir de alerta contra considerar como falsas todas as religiões (denominações). Se uma denominação prega o evangelho com fidelidade, ainda que tenha problemas, ela faz a obra de Cristo. É importante olhar outros cristãos como iguais, e não como menos verdadeiros, desde que professem a fé em Cristo como Senhor e Salvador, tal qual falamos no item 1.
7. Liberdade de escolha
A decisão de deixar uma religião é profundamente pessoal, e amparado por leis nacionais e internacionais**. Permita-se explorar diferentes caminhos, seja aprofundando-se em sua espiritualidade de forma individual ou considerando a possibilidade de se vincular a outra comunidade religiosa. Mas não se sinta pressionado(a) a tomar decisões precipitadas: a busca por um novo lar e família espiritual pode levar muito tempo, e é essencial respeitar seu próprio ritmo e emoções.
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** No Brasil, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º, inciso VI, garante a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias.
Além disso, o inciso VII do mesmo artigo estabelece que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei.
No âmbito internacional, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu artigo 18, dispõe que "toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular".
Portanto, a decisão de deixar uma religião é um direito pessoal e intransferível, que deve ser exercido de forma livre e consciente, sem barreiras impostas por terceiros.

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