Tom Carson, um comentarista bíblico, diz que o apóstolo Tiago é por natureza um moralista. Ele não está tão preocupado com a correta expressão verbal da verdade cristã quanto com sua expressão vivida. “Ele queria fazer dos cristãos, cristãos melhores, ensinar-lhes uma sabedoria mais verdadeira, uma moralidade mais pura […]” (F.W. Farrar, The Early Days of Christianity [Londres, 1900] p. 317).
É nítido como Tiago se concentrava no aspecto ético. “Os pecados e fraquezas que Tiago denuncia são exatamente os mesmos pelos quais Jesus censurava seus conterrâneos, particularmente os fariseus […]. Entre eles, estão a atenção superficial dada à palavra de Deus […] a conversa e confissão de fé piedosas, em vez da prática das coisas em que se acredita […] a tendência a dogmatizar.” (Th. Zahn, Introdution to NT, T.I. [Edimburgo, 1909], p. 90–1).
Por isso, não esperamos menos de Tiago quando ele nos dá uma definição da religião verdadeira: “A religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo.” (Tiago 1:27, NVI).
Segundo R. C. Trench, o termo aqui traduzido por “religião” é “predominantemente o serviço cerimonial da religião”. Não se trata da essência, o todo e nem mesmo de um dos grandes aspectos da religião verdadeira, mas “o corpo, a thrēskeia, da qual a piedade, ou o amor de Deus, é a alma instrutora” (Synonyms of the NT, parágrafo xlviii). Muitos judeus que haviam se tornado cristãos talvez tivessem a tendência a se preocupar mais com questões cerimoniais do que com a profanação moral (Mc 7:1-13).
Assim como Tiago devemos estar preocupados em que a nossa adoração, ou nossa prática religiosa, seja considerada pura, não apenas pelo apego a normas e procedimentos (as questões cerimoniais), mas que seja pura em seu corpo, sua própria estrutura, de dentro para fora. Se consideramos a Deus como Pai temos de nos preocupar com seus outros filhos, nossos irmãos. Caso contrário, agimos como os fariseus censurados por Jesus ou os cristãos aconselhados por Tiago, que estavam falhando em se deixar ser instruídos pelo amor de Deus a cuidar de outros. O corpo da religião verdadeira estava doente.
É preciso lembrar que Tiago estava preocupado, como disse Zahn, com pessoas que tinham “conversa e confissão de fé piedosas, em vez da prática das coisas em que se acredita […] a tendência a dogmatizar”, e que isso interfere diretamente na alma da adoração verdadeira: a atenção às pessoas, e não apenas a procedimentos. Não é como se aqueles homens fossem maus cristãos, mas eles tinham a tendência a se preocupar mais com a liturgia da fé, sua expressão verbal e dogmática, do que com sua vivência diária no mundo real e humano. Portanto, vemos um Tiago menos legalista e mais moralista, que assim como o Deus Jeová estava mais interessado na misericórdia do que no sacrifício (Mt 9:12, 13).
Em sua carta vemos Tiago “arrumando a casa” por amorosamente fazer com que seus irmãos reflitam sobre tudo o que está envolvido numa adoração verdadeira, pura e de coração, o que vai além de um complexo litúrgico de leis, atingindo o âmago da congregação. O pastor que segue o conselho de Tiago preocupa-se mais em conquistar o coração de suas ovelhas do que em obter a a adesão delas a regras e procedimentos.
Por mais que pareça clichê, é correto afirmar que não há força motivadora maior do que o amor. O amor a Deus e às pessoas, especialmente aquelas que compartilham da mesma fé, deve ser o foco do pastor - e não o “fazer por dever”, as tentativas (não-raro frustradas) de fazer com que o rebanho siga as regras litúrgicas e organizacionais com grande rigor. Pastorear é mais do que usar a vara para direcionar o rebanho para um lado ou para outro: é tratá-lo com carinho, como a filhos preciosos que foram comprados pelo Pai por meio do sangue de Cristo. É preciso entender e internalizar esse conceito, do contrário a estrutura central da igreja é corroída e a prática da verdadeira religião deixa de existir.
A CONEXÃO
Para que seja possível viver a adoração pura que Tiago nos ensina é preciso estabelecer uma conexão verdadeira com aquele que deu sua vida pela humanidade, Jesus Cristo. O tipo de sentimento de gratidão, admiração, apreço e amor que alguém sentiria por outro ser humano que se colocasse em sua frente para receber uma bala no peito em seu lugar. Não basta saber que Cristo morreu pelos nossos pecados; é preciso sentir o significado disso, ao se lembrar desse sacrifício a cada dia, tal qual uma pessoa provavelmente lembraria todos os dias de sua vida com imensa gratidão daquele humano que morreu por ela com um tiro no coração.
É somente quando essa conexão se torna viva, forte e real, que um homem se torna apto a cuidar das ovelhas. Ele não apenas ‘entende’ que as ovelhas estão a seus cuidados, mas ele sente no fundo da alma o amor pelo ato de pastoreá-las e a grande responsabilidade que lhe foi delegada. Quando isso acontece o pastor assume o papel de Cristo e, mesmo limitado pela imperfeição, age e pensa de modo parecido com o do Pastor Maior, nosso Senhor Jesus.
O Messias fez curas no sábado, tocou em um leproso e se assentava com pecadores. Embora cumprir a lei fosse importante, ele não se mostrou um legalista a ponto de colocar a lei — ou as regras e procedimentos judaicos —, acima das pessoas. Tiago aprendeu do bom exemplo do mestre e nos ensina em sua carta como todos nós podemos ser cristãos melhores e mais focados na vivência do cristianismo como uma experiência transformadora, que surge de nosso coração e transborda por meio de nossas palavras e ações, erigindo a estrutura base da verdadeira religião, a adoração pura que o Pai tanto procura em seus filhos por toda a Terra (João 4:23).

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