Cristo, o fim da lei.

Porque Cristo é o fim da lei, 
para a justiça de todo aquele que crê.”
Romanos 10:4

A afirmação acima seguramente não é nenhuma novidade, entretanto é alvo frequente de interpretações equivocadas. Nesse artigo iremos esclarecer o que essas palavras realmente significam para os cristãos. Primeiramente, Cristo é o fim da lei no sentido de ser o seu resultado completo, o seu propósito. É isso que nos diz a palavra grega telos, traduzida como “fim”. Jesus não veio para abolir a lei, conforme Mt 5:17, e ela de fato não foi abolida, mas ele cumpriu o propósito ou a meta da lei, exemplificando em sua vida humana a perfeita obediência aos desejos de Deus, algo que nenhum homem jamais poderia realizar. Sendo perfeito, ele pôde resgatar a humanidade da escravidão ao pecado por meio de seu sangue derramado em sacrifício — o derradeiro sacrifício que colocava fim aos holocaustos de animais e a todo o complexo de leis que apenas servia para indicar ao homem o seu caráter pecaminoso e sua necessidade de um redentor definitivo. Observe que este entendimento está em harmonia com o que Jesus diz em seguida (v.18): “… até que tudo se cumpra”. Portanto, o próprio Cristo deixa claro que leis não são necessariamente eternas, mas tem escopo e duração definidos de acordo com um propósito específico. Note o versículo a seguir:

“Quando Jesus tomou o vinagre, disse: — Está consumado!
E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.” 

João 19:30

A palavra “consumado” em grego é a mesma telos usada em Rm 10:4 para se referir ao fim da lei. É a morte sacrificial de Cristo que iria consumar ou cumprir o propósito da lei. É claro que isso não significa que temos liberdade para assassinar, adulterar ou fazer um falso testemunho -  proibições constantes nos 10 mandamentos. Tais coisas se baseiam em princípios éticos e morais universais e os princípios vêm sempre antes da lei, pois são eles quem motivam a criação de uma lei. Por exemplo: o princípio da proteção à vida pode motivar a criação de leis de trânsito que limitem a velocidade em determinadas vias. No entanto, o motorista prudente irá limitar por si mesmo a velocidade se as condições de visibilidade da pista forem baixas. O princípio agirá sobre suas decisões ainda que ele não esteja debaixo de uma lei. Você pode ver esse princípio expresso mui claramente em Rm 13:9.

DUAS ADMINISTRAÇÕES

No passado, Jeová se relacionava diretamente com seu povo por meio de leis que propiciavam o desenvolvimento de uma nação santa (separada) que levaria até o Messias. Mas após a fundação da Igreja é a doutrina apostólica, através de suas epístolas, que passa a reger a vida do cristão. Deus já não tratava mais com uma nação específica, mas com pessoas de todas as nações no contexto administrativo da Igreja. Assim, dizer que Cristo é o fim da lei não quer dizer que a lei foi abolida, mas que os cristãos estão debaixo de um outro sistema administrativo.

Essa condição dos cristãos para com a lei é ilustrada de modo claro por Paulo no Capítulo 7 de sua carta aos Romanos. Ali ele compara a situação dos cristãos com a situação legal de uma mulher que ao perder o marido para a morte passa a estar livre para casar-se novamente. De maneira similar, os cristãos estão mortos para com a lei e, portanto, livres para serem a noiva de Cristo:

“Assim, meus irmãos, também vocês morreram para a lei, por meio do corpo de Cristo, para que pertençam a outro, a saber, àquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que frutifiquemos para Deus.” 
Romanos 7:4

Portanto, Cristo é duplamente o fim da lei: 1) o seu cumprimento ou propósito e 2) o seu final para os cristãos, que passam a viver não mais debaixo de um complexo de leis nacionais, mas de outro sistema administrativo, o da Igreja. Isso também pode ser inferido das palavras de Jesus em João 3:3 sobre o “nascer de novo”. A palavra grega aqui é anothen que tem o sentido de algo que vem do alto, do lugar mais elevado, do céu. Assim, aquele que nasce de novo, tornando-se um legítimo cristão, é um cidadão dos céus e membro do corpo de Cristo, não um judeu sob a lei mosaica.

No capítulo 3 de Romanos, Paulo mostra a condição pecaminosa do homem, que o destitui de forma absoluta da glória de Deus, da qual fora criado como imagem. O versículo 20 (KJA) diz: “Portanto, ninguém será declarado justo diante dele confiando na obediência à Lei, pois é precisamente por meio da Lei que chegamos à irrefutável conclusão de que somos todos pecadores.” A causa da salvação é a graça, através de uma eleição feita na eternidade pela presciência de Deus:

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Pois aqueles que Deus de antemão conheceu ele também predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”
 Romanos 8:28,29

Deus, representando pelo nome “Eu Sou”, é eterno e por isso está acima do tempo e do espaço, que são meras obras criativas de seu incomparável poder. Assim, Paulo afirma com muita sabedoria que Deus já escolheu os salvos em Cristo na eternidade, antes da fundação do mundo, como diz Ef 1:4. Esses cristãos serão irmãos de Cristo, à semelhança dele. Esse conceito contrasta com os judeus, que foram escolhidos “desde a fundação do mundo” (Mt 25:34), mostrando mais uma vez a existência de duas administrações ou linhas do tempo; a dos cristãos escolhidos na eternidade, e a dos judeus, escolhidos na criação do mundo.

RESULTADOS DA SUJEIÇÃO À LEI

É evidente que o motivo de tanto questionamento sobre a validade da lei para os cristãos está obviamente na defesa da “lei do sábado”, algo de particular interesse dos Adventistas. Isso, contudo, tem graves implicações sobre a vida dessas pessoas e em sua esperança de salvação:

“Porquanto, quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas uma das suas ordenanças, torna-se culpado de quebrá-la integralmente.” 
Tiago 2:10

“— Porém, se não derem ouvidos à voz do Senhor, seu Deus, deixando de cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos que hoje lhes ordeno, então virão sobre vocês e os alcançarão todas estas maldições […]” 
Deuteronômio 28:15

Observe que TODOS os mais de 600 mandamentos da lei devem ser cumpridos rigorosamente. Descumprir com apenas um mandamento significa quebrar integralmente a lei e, assim, estar sujeito a todas as maldições descritas em Dt 28:15-68. Portanto, o objetivo da lei era mostrar o caráter pecaminoso do homem, a sua incapacidade de, por seus próprios meios, cumprir plenamente com a vontade divina. Por isso não faz sentido que um cristão hoje queira se colocar novamente debaixo de lei, como alerta Paulo aos Gálatas:

“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Por isso, permaneçam firmes e não se submetam, de novo, a jugo de escravidão. Eu, Paulo, lhes digo que, se vocês se deixarem circuncidar, Cristo não terá valor nenhum para vocês. De novo, testifico a todo homem que se deixa circuncidar que o mesmo está obrigado a guardar toda a lei. Vocês que procuram justificar-se pela lei estão separados de Cristo; vocês caíram da graça de Deus.”
 Gálatas 5:1-4

Como os versos acima mostram, os cristãos foram chamados à liberdade. Eles estão libertos do jugo de escravidão à lei, que não pode produzir a salvação, ao contrário, propicia o pecado e a condenação. Uma vez que alguém queira novamente se submeter à lei, tal pessoa estará então sujeita a toda a lei e suas maldições e, ao mesmo tempo, estará separada de Cristo, o único caminho.

Doenças, confusão, perturbação do espírito: maldições por falhar em cumprir a lei.

Para os cristãos, “qualquer sistema de salvação baseado em desempenho é excluído” (Hollman).

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