Entre a cruz e a estaca.

Cruz. Foto de Cdoncel, Unsplash.

    Para a maioria dos cristãos, não restam dúvidas de que o instrumento de morte de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo foi a bem conhecida cruz. Entretanto, qual o motivo de as Testemunhas de Jeová insistirem que Jesus foi morto em uma estaca simples e não uma cruz? Nesse breve artigo discutiremos o que um cristão consciencioso deveria ter em mente sobre o uso desse ícone.

CRUZ OU ESTACA

    As Testemunhas de Jeová se valem de argumentos que são bastante curiosos. A organização Torre de Vigia cita John Denham, em sua obra "The Non-Christian Cross" (A Cruz Não Cristã). Nessa obra que data do ano 1896 o autor alega que "Não existe uma única sentença em qualquer dos inúmeros escritos que formam o Novo Testamento que, no grego original, forneça sequer evidência indireta no sentido de que o stauros usado no caso de Jesus fosse diferente do stauros comum; muito menos no sentido de que consistisse, não em um só pedaço de madeira, mas em dois pedaços pregados juntos em forma de uma cruz [...]". Essa é a única fonte secular citada no artigo como prova de que Cristo não morreu em uma cruz, mas sim em um poste simples.

    No antigo livro "Raciocínios à Base das Escrituras", as Testemunhas citam outras fontes como base para suas afirmações. Entre elas estão o The Imperial Bible-Dictionary, [P. Fairbairn, (Londres, 1874), Vol. I, p. 376], e o Greek-English Lexicon, de Liddell e Scott, ambos colaborando com o entendimento de que as palavras stauros ou xýlon se referem a um poste reto ou madeiro. No entanto, essas são meias verdades.

O renomado dicionário Strong traz a seguinte definição sobre a palavra grega stauros:

1) cruz
1a) instrumento bem conhecido da mais cruel e ignominiosa punição, copiado pelos gregos e romanos dos fenícios. À cruz eram cravados entre os romanos, até o tempo de Constantino, o grande, os criminosos mais terríveis, particularmente os escravos mais desprezíveis, ladrões, autores e cúmplices de insurreições, e ocasionalmente nas províncias, por vontade arbitrária de governadores, também homens justos e pacíficos, e até mesmo cidadãos romanos
1b) crucificação à qual Cristo foi submetido

2) “estaca” reta, esp. uma pontiaguda, usada como tal em grades ou cercas

    Por essa definição percebe-se que o sentido principal de stauros é mesmo de uma cruz, no formato como conhecemos hoje (uma letra "t" minúscula), embora uma estaca reta também fosse possível. Na realidade, os romanos usavam diferentes formatos de "cruz", que poderiam ir de uma estaca simples até um "X" ou uma cruz invertida, como a que segundo a tradição fora usada com o apóstolo Pedro. Contudo, embora não seja possível afirmar qual o formato empregado especificamente no caso de Jesus, o uso tradicional da cruz em formato de "t" minúsculo sugere que esse mesmo modelo tenha sido adotado em sua execução. As evidências históricas indicam o uso comum desse formato.

    Por exemplo, Plauto em sua obra Carbonaria, fragmento 2, faz referência à segunda peça da cruz: “Platibulum ferat per urben deinde adfigatur cruci” (O patibulum era carregado através da cidade, em seguida pregado na cruz). Estas palavras foram escritas bem mais de um século e meio antes de Cristo. Também Artemidoro de Éfeso escreveu: “Ser crucificado é um bom presságio para todos os navegantes, porque um stauros é construído com madeira e pregos como um navio, e o mastro de um navio se assemelha a um stauro”. Assim, Artemidoro compara a cruz ao mastro de um navio - um mastro tal como pode ser visto no relevo abaixo, encontrado nas ruínas de Cartago e que representa um antigo barco romano daqueles tempos.

Um relevo romano representando um barco: as velas são em formato de stauros (cruz)

AS ORIGENS DA CRUZ

    Como vimos, é inquestionável que o uso da cruz em formato de um "t" pelos romanos era algo bastante comum, o que indica ser este o modelo usado na morte sacrificial de Jesus. Em "Raciocínios à Base das Escrituras" as Testemunhas questionam as origens pagãs deste instrumento, devido ao seu uso na Índia, Síria, Pérsia e Egito, além do uso para adoração de Tamuz, deidade pagã Caldéia. Este, porém, é um raciocínio enganoso. A organização das Testemunhas de Jeová usa em suas publicações a representação de um poste ereto como instrumento de morte de nosso Senhor, entretanto um poste ereto é também um símbolo pagão, que diferente de Tamuz, continua a ser usado ainda hoje na forma dos famosos obeliscos, presentes em cidades de todo o mundo!

    É preciso compreender que todas as formas geométricas simples, tais como uma cruz, um triângulo ou um poste ereto (hebraico אשרה Aserá, ou "poste sagrado", como em Juízes 6:25 na Tradução do Novo Mundo), seguramente já foram utilizadas por povos pagãos ao longo da história, sem que isso tenha especial significado hoje. Assim, resta a pergunta: qual o motivo da aversão da Torre de Vigia pela cruz, se até mesmo um poste ereto também é um símbolo de origem pagã?

CONCLUSÃO

    Seja qual for o instrumento utilizado (e tudo leva a crer de que se tratava de uma cruz em formato de um "t" minúsculo), nada indica que seu uso seja inapropriado (exceto, é claro, como um objeto de adoração ou proteção). Assim, alguns decidem usar uma cruz como acessório e símbolo de sua devoção a Cristo, ou mesmo tatuá-la em uma parte do corpo — isso é algo que cada um deve decidir conforme sua consciência e daqueles ao seu redor (1Co 8:9). Há ainda diversos outros modelos de cruz, como é o caso da cruz celta, amplamente usada na Irlanda. Cada modelo tem sua história milenar, mas todas não passam de figuras geométricas.

    É importante ressaltar, entretanto, que a cruz com uma imagem representativa de Jesus já poderia se tornar um símbolo de adoração e uma violação evidente das leis de Deus. O uso da cruz aqui discutido é da cruz vazia, a qual se tornou um símbolo do cristianismo, já que transmite a ideia da morte e ressurreição de nosso Senhor, permitindo-nos o acesso à verdadeira vida. É a obra de Cristo na cruz do calvário que nos dá a vida, não a forma geométrica ou o objeto. Usá-la é apenas um sinal de reconhecimento pelo que Cristo fez por nós e de nossa a alegria em sermos chamados de cristãos!

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