Uma rápida pesquisa no Google pelo termo "rei do norte profecia", mostrará nas primeiras páginas diversos artigos e vídeos produzidos pelas Testemunhas de Jeová e pelos Adventistas do Sétimo Dia, o que sugere que boa parte do interesse sobre esse assunto é fomentado justamente por estes grupos religiosos, que como todo grupo com foco apocalíptico, vivem em função de profecias sobre um iminente fim do mundo.
A ideia de reis do norte e do sul, como uma aplicação ao no mundo moderno da profecia de Daniel 11, ganhou força nestas denominações americanas no contexto da Guerra Fria, na segunda metade do século XX. As famílias norte-americanas achavam-se preocupadas com o futuro, em vista de um possível e catastrófico conflito nuclear entre as duas maiores potências de seu tempo, Estados Unidos e União Soviética. Este era um cenário perfeito para transformar um inimigo em comum no imaginário americano em um inimigo do povo de Deus, isto é, das Testemunhas de Jeová — uma religião americana em todos os sentidos, nascida do feeling comercial de Charles Taze Russel e em certa medida alinhada com o "american way of life" ¹.
Em 1999, dez anos após a queda do muro de Berlim que prenunciou a derrocada do comunismo soviético, a Sociedade Torre de Vigia lançou o livro "Preste Atenção à Profecia de Daniel". Essa publicação trazia a partir do capítulo 13 uma análise do balé das potências mundiais sob a ótica do Corpo Governante. Um dos problemas dessa publicação é que ela determina quais nações assumem o papel desses reis em nossa época, chegando a posicionar os EUA como o rei do sul, ou seja — como a força geopolítica que se contrapõe ao mal comunista que buscava destruir as Testemunhas de Jeová. Estrategicamente isso é muito conveniente, atraindo adeptos anticomunistas para o seu meio. Contudo, os EUA não poderia jamais assumir esse papel, uma vez que este se refere especificamente a nações geograficamente ao sul de Israel. Mas para fins de doutrinação essa publicação era extremamente necessária. O antigo rei do norte havia caído; a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) havia se fragmentado em diversas nações independentes, enquanto a Rússia ressurgia como uma potência falida, mas aberta ao mundo exterior e voltada ao capitalismo. Como explicar aos membros da seita que o rei do norte havia deixado de existir?
Um novo rei
Nas rodas de conversa que surgiam nos salões do reino e no proselitismo de casa em casa, muitos membros da religião especulavam sobre quem seria o novo rei do norte. O livro "Profecia de Daniel" veio exatamente com o objetivo de deixar essa questão em aberto e colocar mais lenha na fogueira das especulações. Parecia improvável que o futuro rei do norte viesse da Rússia, afinal a Torre de Vigia ensinava que a troca de empurrões entre os dois reis, conforme Daniel 11:40, eram as provocações bélicas entre URSS e EUA durante o período da guerra fria, que então havia simplesmente deixado de existir; logo, sem guerra fria, sem empurrões. A profecia estava desmoronando! A solução foi nutrir um sentimento de espera por um novo rei do norte e quando o corpo governante decretou o seu surgimento, na reunião anual de 2018 da Sociedade Torre de Vigia, houve um novo avivamento na expectativa por um iminente Armagedom na mente dos adeptos.
Um ano antes, na Rússia, o governo de Vladimir Putin colocava em ação sua nova lei antiterror, o que acabou por gerar a classificação das Testemunhas de Jeová naquele país como uma organização extremista. Para muitos isso pode parecer injusto, afinal a maioria dos membros da religião são vistos como pessoas pacíficas, mas é preciso ir mais à fundo. Mesmo após o fim da guerra fria, Moscow nunca viu com bons olhos a influência americana em sua cultura. E as Testemunhas são essencialmente uma seita americana, que proíbe seus membros de prestarem o serviço militar e participar de atividades políticas. Some a isso a morte de inocentes, incluindo crianças, devido à doutrina sobre o sangue, o ostracismos contra ex-membros e e você vai entender porque a religião é vista como extremista pelos russos. É uma religião que corrói o tecido social, e a Rússia não poderia correr o risco de deixar essa influência contaminar seus cidadãos e afetar as bases do poder do Estado. Então, apesar de a lei aplicar-se a todas as religiões, vemos que o rigor maior recai sobre a denominação americana, especialmente devido a sua pregação de casa em casa, algo inaceitável pela nova lei.
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| O dinamarquês Dennis Christensen, primeiro membro da seita condenado na Rússia, em 2019 |
Assim, quando em 2017 a Rússia classificou as Testemunhas de Jeová como organização extremista, o oportunismo logo entrou em campo, e o corpo governante cravou que a Rússia e seus aliados compunham uma espécie de rei do norte coletivo. Isso também foi uma grande sacada estratégica. Ao incluir no escopo de rei do norte os seus aliados como a China e o Irã, a Torre de Vigia se protegeu de mudanças no cenário geopolítico, de forma que mesmo se apenas um desses seus aliados entrasse em atritos mais severos com a potência anglo-americana isso poderia ainda assim ser creditado como uma "troca de empurrões" entre estes dois reis, validando a profecia.
Mas antes de prosseguirmos para o que acreditamos ser uma interpretação mais correta sobre o rei do norte, convém falar sobre a forma como Daniel 11:40 é vertido na Tradução do Novo Mundo (TNM). É verdade que a palavra em seu idioma original tem, entre outros, o sentido de "empurrar". Porém, é importante olhar para o contexto ao traduzir. Conforme nota na própria TNM, essa palavra também pode ser traduzida como "chifradas". O que o texto quer nos passar aqui é a ideia de uma briga entre duas potências, comparável a dois bois que duelam entre si por meio de seus chifres. Ao usar o termo "empurrões" a Torre de Vigia se vale de uma palavra que se aproxima mais da ideia de provocações, levando-nos de volta aos tempos da guerra fria. Assim, a TNM propositalmente parece traduzir o texto de forma a cooperar com a sua interpretação de que a briga entre esses dois reis na realidade seria apenas uma troca de provocações, como vimos na guerra fria. Veja, porém, como o texto aparece na Almeida Revista e Corrigida (grifo acrescentado):
"E, no fim do tempo, o rei do Sul lutará com ele, e o rei do Norte o acometerá com carros, e com cavaleiros, e com muitos navios; e entrará nas terras, e as inundará, e passará."
Observe como o texto versa literalmente sobre uma luta que inclui a utilização de meios militares e até mesmo a invasão das terras do sul pelo rei do norte, e isso é bem diferente de uma mera troca de empurrões, isto é, de ameaças e provocações no contexto da antiga guerra fria ou da nova, como parte do processo de derrubada da ordem mundial atlanticista e do surgimento de uma nova ordem mundial multipolar ². Embora não se trate exatamente de uma adulteração, pois a palavra nagach traduzida como "lutará" na Almeida Revista e Corrigida também pode ter o sentido de empurrar, vê-se claramente uma opção da Torre de Vigia por uma expressão que corrobore com a sua escatologia. O versículo seguinte (v.41) diz que o rei do norte "entrará também na terra gloriosa", profecia que segundo o Corpo Governante se cumpriu quando policiais invadiram salões do reino e confiscaram o Betel naquele país.
Agora que vimos como se deu a escolha do novo rei do norte por parte da organização das Testemunhas de Jeová, resta-nos finalmente identificar, na medida do possível, o rei do norte escatológico.
Um rei futuro
A profecia no capítulo 11 de Daniel trata essencialmente da alternância dos poderes hegemônicos que teriam alguma influência sobre a história do povo pactuado de Deus, o antigo Israel. Não podemos falar sobre essa profecia sem mencionar como ela ressalta o poder e a soberania de Deus. A história é contada de antemão e o futuro é revelado ao profeta, não apenas porque Deus está acima do tempo, mas porque é Ele quem decreta os acontecimentos, ainda que em nossa visão limitada algumas coisas possam parecer más. Deus é soberano e Ele não assiste a história humana como um ente passivo, mas Ele decreta os acontecimentos, enaltece reis e remove reis, de modo que tudo ocorra conforme Sua vontade graciosa (Dn 2:21; Rm 8:28). A presciência de Deus não significa sua capacidade de enxergar o futuro, mas de saber o que vai acontecer no futuro — porque o futuro foi determinado por Ele! Essa perspectiva bíblica evidentemente é bem diferente daquela da Torre de Vigia, em que Yahweh é um personagem passivo na história, que observa a derrocada humana por milênios, agindo somente ao final para provar aos homens e aos anjos que Ele é melhor que o diabo.
É através destes decretos que Daniel fica sabendo que Dario, o medo, seria substituído por três reis persas: Cambises II (530-522 a.C.), Gautama (522 a.C.) e Dario I (522-486 a.C.). Após estes, um quarto e mais poderoso rei usaria sua grande fortuna para financiar uma guerra brutal contra a Grécia; este rei foi Xerxes (486-465 a.C). A história segue sendo contada de antemão a Daniel, que conhece em seguida o curto mas implacável período da Grécia sob Alexandre, o Grande, um governante simpático aos judeus, mas cujo império acabou sendo divido entre quatro reis — nenhum com a glória anterior (Dn 8:8). O reinado de apenas 10 anos de Alexandre, o Grande, espalhou amplamente a cultura grega. A cidade de Alexandria, cujo nome é em sua homenagem, teve a maior biblioteca do mundo antigo. Foi ali que foi feita a tradução das Escrituras do hebraico para o grego, a importantíssima Septuaginta, versão que provavelmente era bastante utilizada pelos apóstolos e que chega até os nossos dias. É a soberania de Deus mostrando como seus decretos tem sempre um profundo propósito!
Deixando de lado detalhes sobre a dança dos reis ao longo da história, avancemos até Dn 11:36-45. Perceba a similaridade entre Dn 11:36, 2Ts 2:3-4 e Ap 13:5-6. Estes textos mostram uma conexão entre o anticristo e o personagem central da parte final de Daniel 11. Dessa feita, muitos preferem interpretar essa passagem como referindo-se ao anticristo escatológico (futuro) e não ao governante de uma nação específica. Os reis anteriores eram apenas um protótipo do anticristo, um protótipo de um verdadeiro império mundial autoritário e anticristão. O único deus que o anticristo adorará é seu próprio poder (vss. 38, 39). O v. 41 menciona a "terra gloriosa", que nos tempos de Daniel se referia à Palestina, mas que poderíamos identificar com a Igreja na nova aliança — o povo de Deus sendo perseguido brutalmente (vss. 40-44). Ao final da perseguição o próprio Deus destruirá o anticristo (v. 45).
Conclusão
Em síntese, entendemos que o rei do norte em nosso tempo não pode ser atribuído a um governante de uma nação específica, pois:
- Ele é o próprio anticristo e seu domínio será mundial, não local.
- A profecia termina antes de Jesus, e então dá um salto para o tempo do fim. Não há uma sucessão direta de potências dos dias de Daniel até os nossos dias, como ensina o Corpo Governante.
- Reinos do norte e do sul tem Israel como referência geográfica. A escolha do rei do norte pela Torre de Vigia se deu sempre por questões políticas; o rei do norte, na visão deles, é sempre inimigo dos EUA, onde se encontra a sede da organização religiosa. Os EUA não ficam ao sul de Israel, tampouco o Reino Unido, de onde se originou.
- A lei antiterror russa abrange outras denominações religiosas ocidentais, e algumas igrejas já foram fechadas. Portanto, o argumento de que a Rússia é o rei do norte porque persegue as Testemunhas de Jeová, supostamente o único povo de Deus na Terra, é totalmente inválido.
- Quando a Bíblia fala sobre o rei do norte ela sempre está se referindo a pessoas, e não exatamente às nações. Em contraste, a Torre de Vigia fala sobre o rei do norte como sendo um conjunto de nações, algo sem precedente bíblico.
Como sempre, existem outras escolas de interpretação. Alguns especulam que o rei do norte virá da Rússia, cujo território no passado fora ocupado por Jafé, filho de Noé. Entre os descendentes de Jafé destaca-se Magogue³, que é citado em Ap 20:8, que então junto de aliados como China e Irã partiriam em uma guerra contra a nação de Israel, entendendo que o povo de Deus mesmo em nossos dias continua sendo a nação judaica. Outros acreditam que o anticristo virá dos povos árabes, que se originam de Ismael. Como pode perceber há muita especulação, e a Bíblia não nos permite ir tão longe. A certeza que temos é de que não há nenhum fundamento para a alegação de que a Rússia como país é o novo rei do norte, muito menos que estes reis chegaram até nossos dias. A profecia para por volta do ano 164 a. C. e só retorna após um salto temporal até o rei do norte escatológico, que é o anticristo no tempo do fim.
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| Reinos ao norte e sul de Israel, de Sem, Cam e Jafé. |
Referências
Preste Atenção à Profecia de Daniel! 1. ed. Cesário Lange: Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 2012. Disponível em: <https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/1101999033>. Acesso em: 19 out. 2022.
Bíblia de Estudo da Fé Reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2021.
DIAS LOPES, Hernandes. Daniel um homem amado no céu. 1. ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2005.
¹ American way of life ou "estilo de vida americano" foi um modelo de comportamento surgido nos Estados Unidos após a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. Este modo de viver passava pelo consumismo, a padronização social e a crença nos valores democráticos liberais.
² Sobre a nova ordem mundial multipolar, leia sobre a quarta teoria política, de Alexander Dugin
³ Gogue e Magogue provavelmente se referem a todo o conjunto de nações que se voltam contra o povo de Deus, não um povo específico.




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