Marcionismo: a heresia de muitas ex-Testemunhas de Jeová

Igreja medieval. O combate aos hereges era uma constante.
Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição.2 Pedro 2:1 (ARA)

    Billy Graham, um conhecido evangelista norte-americano certa vez disse que a "Bíblia é mais atual que o jornal de amanhã". Suas palavras expressam a realidade avassaladora das Escrituras Sagradas em sua inerrância, exatidão e contemporaneidade. O texto acima, do apóstolo Pedro, endossa o pensamento de Graham. Exatamente como profetizado, desde o século XIX o mundo tem produzido infindáveis heresias, geralmente versões adaptadas de ensinos falsos do início da era da Igreja. Lamentavelmente, muitas pessoas que passaram anos ou décadas aprisionados por ensinos de grupos sectários acabam por renegar parte das Escrituras, produzir interpretações fantasiosas ou se entregar a velhas heresias. Mas vamos ir mais à fundo na mensagem do apóstolo.

    Pedro escreveu sua carta por volta do início do segundo século. Naquele tempo, ideias contrárias à fé cristã começaram a surgir, as vezes dentro da própria comunidade e sob influência da filosofia grega. É interessante notar o uso da expressão "falsos mestres" (gr.: pseudodidaskalos). Os mestres tinham grande importância na cultura judaica, sendo Jesus também chamado de mestre. No cristianismo primitivo a figura do mestre também era importante, e ao chamar tais pessoas de falsos mestres, Pedro mostrava que elas estavam a usurpar uma posição e autoridade que não lhes cabia. Eram simplesmente enganadores! E uma marcante característica desses enganadores era o fato de introduzirem com astúcia ou dissimulação as suas ideias. Eles não pregavam abertamente suas falsas doutrinas, mas sutilmente as introduziam e arrebanhavam adeptos para elas. Pedro classifica o pensamento propagado por essas pessoas de "heresias destruidoras".

    Heresia vem do grego hairesis, que tem o sentido de "um grupo de homens escolhendo seus próprios princípios" (STRONG). Em tempos não apenas do política como do religiosamente correto, a noção de que uma escolha religiosa pessoal deva ser repudiada pode parecer autoritária aos olhos de muitos, mas o verdadeiro cristão deve se atentar à palavra de Deus e se submeter a ela, e não inventar significados hereges para justificar suas posições. Tais heresias no segundo século eram destruidoras ao ponto de fazer com que alguns renegassem o Soberano Senhor que os resgatou — e isso em nada difere do que acontece com as heresias anabolizadas de nosso tempo! Mas como essas heresias poderiam fazer com que os cristãos renegassem a Deus?

     Assim como no Antigo Testamento o povo de Deus foi enganado por falsos profetas (Jr 23:16-40), assim também na Era da Igreja enganadores surgiram na figura de falsos mestres, os quais tergiversavam as palavras de Cristo e subvertiam a sã doutrina apostólica. Dentre estes, havia os que menosprezavam o significado da vida e morte de Jesus; uns diziam que ele não poderia ser Deus, outros que não poderia ter sido homem, e ainda outros que sua ressurreição fora apenas em espírito. De um modo ou de outro, a negação de Jesus está no cerne de toda heresia. Embora muitos de seus propagadores se considerem cristãos — e realmente acreditem naquilo que pregam —, suas ideias mostram o contrário.

    Um destes homens foi Marcião de Sinope, cuja heresia ficou conhecida por marcionismo ou heresia
marcionita. Marcião viveu entre o final do primeiro século e metade do segundo, sendo grandemente influenciado pela cultura de seu tempo, o que incluiu o judaísmo, a filosofia helenística e especialmente o Zoroastrismo, de origem persa. O "profeta" Zaratustra (ou Zoroastro) acreditava na existência de um deus pai e soberano que havia criado outros dois deuses, um bom e outro mau, portanto uma dualidade. Os humanos deveriam cultuar o deus bom. Um dia esse deus venceria o duelo contra o deus mau, e as pessoas que não o seguiram seriam recompensadas com a vida em um paraíso, enquanto o deus mau e seus seguidores seriam condenados a trevas eternas, o que equivale a uma espécie de inferno na doutrina cristã. O zoroastrismo também oferecia sacrifícios ao deus sol em montes e construía locais de culto chamados de "Templos do Fogo", onde uma chama era mantida constantemente acesa. Essas ideias pagãs influenciaram Marcião, e foi a partir desse sincretismo que sua heresia tomou forma.

    Assim, Marcião acabou desenvolvendo a tese de que o Deus do Antigo Testamento (Jeová) não poderia ser o mesmo Deus do Novo Testamento (Jesus), pois o primeiro demonstraria ser um deus mau e o segundo, um deus bom. O perigo de heresias como essa é que à primeira vista elas podem parecer fazer algum sentido, sendo por isso potencialmente destruidoras. Mais tarde, grandes nomes da Igreja refutaram o marcionismo, assinalando as conexões entre o Antigo e o Novo Testamento, mas apesar disso, muitos ainda hoje se deixam levar por essa e outras heresias, quer por falta de conhecimento, preconceito contra estudiosos cristãos ou por simples repúdio às verdades bíblicas.

    Uma das "provas" de que o Deus do Antigo Testamento é mau e diferente de Jesus, citada pelos apoiadores dessa heresia, é o fato de Jeová estar em trevas (Êx 20:7), ignorando os muitos significados de nuvens e trevas que ocorrem nas Escrituras, e que nesse caso se refere simplesmente à nuvem atemorizante que cobria o monte. Outra suposta "prova" ou evidência é o texto em Nm 31:14-18, veja:

"Indignou-se Moisés contra os oficiais do exército, capitães dos milhares e capitães das centenas, que vinham do serviço da guerra. Disse-lhes Moisés: Deixastes viver todas as mulheres? Eis que estas, por conselho de Balaão, fizeram prevaricar os filhos de Israel contra o SENHOR, no caso de Peor, pelo que houve a praga entre a congregação do SENHOR. Agora, pois, matai, dentre as crianças, todas as do sexo masculino; e matai toda mulher que coabitou com algum homem, deitando-se com ele. Porém todas as meninas, e as jovens que não coabitaram com algum homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós outros."Números 31:14-18 (ARA)

    Voltando um pouco atrás, para Nm 25:1-18, podemos ver todo o contexto da ordem de Moisés que, diga-se de passagem, é citado pelo escritor de Hebreus como um dos "campeões da fé" dos tempos pré-cristãos, e portanto digno de nosso maior respeito e consideração como alguém que prefigurou Cristo em seu papel como libertador. De acordo com essa perícope, Israel estava sendo desviado a outros deuses por meio das mulheres moabitas, acendendo a justa ira de Deus. O Jesus "água com açúcar" que parece existir na mente de muitos seria então incompatível com esse Deus que se ira quando seu povo se desvia para deuses falsos, mas essas pessoas se esquecem de que Jesus se irou por muito menos ao ver cambistas fazendo negócios no templo. Se o templo era de Jeová, o deus falso, porque Jesus ficaria irado dessa maneira? Porque Jesus cumpria toda a lei, se essa havia sido dada por esse suposto deus falso Jeová?

    Questões à parte, foi dada a ordem para que todos fossem mortos, incluindo as mulheres midianitas — justamente as mesmas que levaram Israel aos falsos deuses. Portanto, é óbvio que especialmente essas não deveriam ter sido preservadas pelos soldados. Isso acendeu a ira de Moisés que ordenou a morte de todas, exceto as jovens que ainda não haviam tido relações com homens. Diante da cultura feminista em que vivemos, um movimento financiado pelos Rockefellers com motivos nada puritanos, a ideia de mulheres e crianças sendo assassinadas na Bíblia parece machista. Entretanto, é preciso compreender tanto a cultura da época como, e especialmente, a questão teológica envolvida. No mundo físico somos apenas peregrinos (He 11:13) e devemos escolher se jogaremos conforme as regras de Deus ou se seguiremos nossa carnalidade — não há algo como uma terceira via. Ademais, o fato de sermos peregrinos nos lembra de que somos seres que possuem uma continuidade existencial em domínios espirituais. A morte, por mais dolorosa ou injusta que seja aos nossos olhos, não passa de um processo de transferência de uma realidade para outra. Não se trata de um aniquilacionismo, no término abrupto da existência de um ser, muito menos de forma injusta ou indevida. O caso de Ananias e Safira (Atos 5:1-11) mostra que Deus não mudou e esse mesmo Deus, Jesus, pode soberanamente ceifar a vida de alguém deste mundo material, ainda que alguns tolos o queiram questionar (Veja Rm 9:21-29).

    Mas, talvez, o mais importante é lembrarmos de que Paulo, em Rm 9:15, cita essa mesma passagem¹, um pouco depois de declarar que Cristo é Deus, e que ele GOVERNA SOBRE TODAS AS COISAS. Em seguida, ele continua sua explanação citando o texto em questão e mostrando que Deus (lembre-se: título que ele atribuiu a Jesus!) tem todo o direito de mostrar sua ira. O mesmo Jesus que diz "Vá e não peques mais" também aparece em Apocalipse trazendo a espada sobre sobre pecadores impenitentes. As duas naturezas, com toda a ressalva de que são antropomorfismos e não podem expressar uma realidade espiritual além de nossa compreensão, estão presentes no mesmo Deus, tal como sua natureza humana e divina.

    Deus não está ausente, como prega outra heresia (o deísmo), mas atua mesmo agora em nossos dias, trazendo juízo sobre indivíduos e povos que agem impiamente, ao mesmo tempo em que deixa fluir a sua graça comum sobre estes. Eu sempre gosto de lembrar que quem se assenta sobre os ombros de gigantes enxerga mais longe, e a Bíblia corrobora com isso (Pr 15:23). Como dizia o filósofo Olavo de Carvalho: "Só um imbecil completo deseja ter uma opinião própria. Quem tem cabeça busca uma opinião verdadeira." Nossas opiniões não são necessariamente próprias, mas apenas infindáveis constructos sociais nos quais raramente temos a oportunidade de acrescentar alguns tijolos. Isso vale para o conhecimento bíblico verdadeiro, como vale para  as velhas heresias que renascem de tempos em tempos, às vezes com uma parede caiada. Cabe a nós decidirmos nos ombros de quem nos assentaremos para sermos ensinados; de gigantes ou de nanicos.

    Portanto, antes de se deixar induzir por pensamentos e sutis sugestões de terceiros, valide tudo aquilo que lhe é apresentado, ao invés de simplesmente aceitar porque "parece fazer sentido". Você pode até ter a opinião de que poderá fazer uma curva a quase 90º em uma serra com seu carro a 140 Km/h, porque alguém lhe disse que é possível, mas quanto vai lhe custar essa sua "opinião própria"? Não seria melhor ir em busca de uma opinião verdadeira antes de mergulhar de forma épica num despenhadeiro? Rejeite a tendência de aceitar qualquer coisa sem questionar, sem procurar refutações, bem como fontes confiáveis de informação. O risco aqui não é o despenhadeiro no final da curva, é algo muito mais profundo e sombrio. Renegar o Deus que o resgatou, esse mesmo Deus do Antigo Testamento, não é em nada diferente de renegar a Cristo, como fazem algumas denominações. O resultado, similarmente, é a morada nas trevas, onde há choro e ranger de dentes, sob o eterno juízo de Deus. Você quer mesmo isso?

NOTAS

1. Segundo os adeptos do marcionismo, passagens como essa teriam sido adulteradas por cristãos judaizantes. Esse tipo de argumento é semelhante ao utilizado pelos espíritas e espiritualistas. Marcião também aceitava apenas o evangelho de Lucas e dez escritos de Paulo, sendo que alterou alguns destes para se ajustar ao seu entendimento, o que por sua vez é semelhante ao que alguns já fizeram ao produzir suas próprias traduções da Bíblia.

REFERÊNCIAS

https://brasilescola.uol.com.br/historiag/marcionismo.htm

https://www.maisrelevante.com.br/2020/02/18-marciao-de-sinope.html

https://brasilescola.uol.com.br/mitologia/zoroastrismo-religiao-dos-antigos-persas.htm

https://www.apologeta.com.br/trevas/

https://firmefundamento.comunidades.net/seitas-e-heresias

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