O nome de Jeová é uma torre forte?


O nome de Jeová é uma torre forte. O justo corre para dentro dela e recebe proteção. — Pv 18:10 (TNM 2015)

    As Testemunhas de Jeová citam com frequência esse texto para argumentar que é necessário fazer parte de sua organização — única religião verdadeira — para ser protegido de um iminente cataclisma mundial sobrenatural chamado de Armagedom. Antes de comentarmos esse texto, convém observarmos algumas das afirmações feitas pela Sociedade Torre de Vigia a respeito:

Quem ‘se refugia’ no nome de Jeová (entendendo e reconhecendo este nome em tudo o que representa) verificará que é como uma torre forte, para a qual, nos tempos antigos, as pessoas fugiam em busca de segurança diante do inimigo. — Estudo Perspicaz, Vol. 2 pág. 755

Nós também vivemos num mundo que tem muita influência dos demônios. Então, nós precisamos orar usando o nome de Jeová e pedir para ele nos proteger. — Você pode entender a Bíblia, pág. 110 - 113

Quem mais, em todo o domínio da vida inteligente, podia de direito dar-se um nome assim, exceto o Altíssimo e Todo-poderoso? Nem mesmo o Filho de Deus, Jesus Cristo, assumiu um nome assim. Podia receber um nome que combinava com o nome de Deus, tal como Jesua ou Jesus, que significa “Jeová É Salvação”, mas nunca o nome Jeová estritamente por si mesmo. [...] No fim das contas, embora agora seja feito por meio de Jesus Cristo, o Filho de Deus, ainda assim é o nome de Jeová que as criaturas humanas decaídas e pecaminosas têm de invocar em busca de salvação eterna. Não foi apenas o profeta pré-cristão Joel quem disse isso. (Jl 2:32) Foi também o apóstolo Pedro quem disse isso no dia de Pentecostes de 33 E. C., quando se fundou a congregação cristã. (At 2:21) Anos depois, o apóstolo Paulo também escreveu isso, em Romanos 10:13. Embora se obtenha agora o acesso ao Altíssimo e Todo-poderoso apenas por meio de seu Mediador Jesus Cristo, ainda é em Jeová que temos de achar nosso refúgio e é ele quem é nossa fortaleza inexpugnável. — A Sentinela, 01 de março de 1975, págs. 152-153, parágrafos 5-6

Está perguntando: Como pode um nome ser uma torre forte? [...] Por causa daquilo que Jeová propõe fazer com respeito ao seu nome. E o que é isso? Vindicar o seu nome aos olhos de toda a criação por eliminar os que se lhe opõem e o difamam. Entretanto, para os que agora honram e proclamam êsse nome, êle será uma torre forte, pois Jeová os protegerá da ira dos seus inimigos bem como os escudará contra a expressão da sua própria ira contra seus inimigos. — A Sentinela 1 de janeiro de 1958, pág. 3

Analisando os argumentos

    Embora neguem, essas afirmações praticamente colocam Jeová como um substantivo dotado de atributos místicos; é uma forma sutil de desenvolver um senso exclusivista entre os membros do grupo religioso. Conforme a primeira citação (Estudo Perspicaz), refugiar-se em Jeová significa entender esse nome e tudo o que ele representa. Isso até pode parecer fazer sentido quando se acredita que Jeová é o Pai de Jesus, um ser criado que também é um anjo, no entanto não é isso que a Bíblia realmente ensina, a despeito das tentativas da organização de deturpar essa verdade através do uso de passagens descontextualizadas das Escrituras e sem o devido alicerce teológico. Como veremos adiante, refugiar-se no nome de Deus não significa simplesmente entender o seu significado ("Ele causa que venha a ser", segundo a Torre) nem o que está envolvido nele.

    A segunda citação é um exemplo clássico da mitologia criada pelo corpo governante ao redor deste nome (grifo acrescentado): "Nós também vivemos num mundo que tem muita influência dos demônios. Então, nós precisamos orar usando o nome de Jeová e pedir para ele nos proteger." Atribui-se uma propriedade mística ao nome Jeová, ao ponto de ser necessário "orar usando [este] nome" para ter algum tipo de proteção contra espíritos malignos. Ora, o que os relatos bíblicos nos dizem a respeito? Em nome de quem é que os demônios eram expulsos pelos primitivos cristãos? Em nome de Jesus, não de Jeová! Portanto, trata-se evidentemente de uma afirmação falsa com o único objetivo de transmitir a ideia de que os membros estão mais protegidos dentro dessa seita, pois são os únicos que usam esse nome rotineiramente (At 16:18; Mc 16:17). Aliás, esse tipo de doutrina exclusivista é uma das principais de toda seita.

    Já a terceira citação é um exemplo de como as doutrinas desta organização são anticristãs. Entre outras heresias lemos: "No fim das contas, embora agora seja feito por meio de Jesus Cristo, o Filho de Deus, ainda assim é o nome de Jeová que as criaturas humanas decaídas e pecaminosas têm de invocar em busca de salvação eterna." A revista rebaixa a Jesus, dizendo que ele não poderia receber o nome Jeová e ainda afirma que somente os que invocarem (clamarem por) o nome de Jeová serão salvos. O que a revista deixa de citar, porém, é que Paulo em Rm 10:13 cita justamente o texto de Jl 2:32 e o aplica à pessoa de Jesus, e o mesmo vale para Pedro. Ambos os textos se encontram adulterados na Tradução do Novo Mundo, onde referências ao senhorio de Cristo (grego Kyrios) foram substituídas por "Jeová". Textos que continham explicitamente as palavras Jesus e/ou Cristo em grego foram mantidos inalterados pelos tradutores da TNM.

    Por fim, na quarta citação temos a falácia da "vindicação do nome de Deus". A Bíblia está repleta de textos que enfatizam a soberania absoluta de Deus, inclusive neste mesmo livro, como vemos em Pv 16:1, 9, 33. Ao dizer que até mesmo nossos cabelos estão contados (Lc 12:7), as Escrituras declaram em forma poética o controle absoluto de um Deus que é soberano sobre toda a criação e sobre cada mínimo acontecimento; nada escapa ao seu controle — ele não é pego de surpresa pelas atitudes humanas nem age conforme elas vão acontecendo. Costumo chamar o deus da teologia das Testemunhas de Jeová de um deus bombeiro: ele apenas apaga os incêndios à medida que surgem, ao invés de soberanamente decretar sua vontade sobre o universo. De fato, todos os anjos e até mesmo o Diabo e os demônios tem plena consciência da soberania de Deus e da eficácia de seu comando, não precisando ser convencidos de que o modo de Deus governar é o melhor, como a Torre de Vigia erroneamente tem ensinado há 1 século e meio. No episódio em que um homem é possesso por uma legião de demônios chama a atenção o pavor destes seres diante do poder soberano de Deus em Cristo Jesus (Lc 8:30-33). Ao mesmo tempo, Tiago, meio-irmão de Jesus, diz em sua carta que os demônios creem que há um só Deus e estremecem (Tg 2:19). Logo, é uma simples questão de lógica: tremeriam os demônios de pavor diante de um Deus que eles supostamente acreditariam ser fraco e incapaz de governar corretamente? Que dizer dos humanos? Precisam eles ser convencidos? A resposta é igualmente não! Todos os que genuinamente creem no Deus dos cristãos, independente de frequentarem esta ou aquela denominação, creem também na capacidade de decisão de Deus e em seu infindável poder que o habilita a determinar os acontecimentos da história de tal modo que no grande plano de salvação todas as coisas ocorram conforme sua vontade e para o bem dos que o amam (Rm 8:28, 29).

    Quanto aos descrentes, a história mostra que nem mesmo provas sobrenaturais são capazes de fazer com que pessoas distantes de Deus passem a amá-lo; isso posto, Deus não precisa nem tenta provar a elas que seu modo de governar é o melhor; para elas não existe outro modo porque não creem em Deus e se tivessem provas de sua existência o ignorariam da mesma maneira, pois não querem abandonar seu modo carnal de viver. Portanto, Deus não precisa vindicar seu nome no sentido de mostrar o Deus soberano que é. Esta é uma verdade universal que todo crente conhece — não é um segredinho que só as Testemunhas de Jeová sabem e tentam heroicamente divulgar ao mundo!

     Ainda outro erro está na ideia de que o nome de Deus literalmente necessite de alguma "vindicação". O argumento aqui é que esse nome fora removido das Escrituras Sagradas e que coube ao grupo formado por Joseph F. Rutherford restaurá-lo e divulgá-lo. Isso não poderia estar mais distante da verdade! Os judeus consideravam o nome de Deus sagrado demais para ser pronunciado. Junte isso ao fato de que durante o longo exílio em Babilônia no século VI  a.C., o povo de Israel deixou de usar o nome divino,  e você terá o motivo pelo qual ao longo do tempo sua pronúncia se perdesse. Com isso o tetragrama passou a ser substituído por termos como Elohim (Deus) e Adonai (Senhor). Foram os massoretas (escribas judeus) entre os séculos VI e X de nossa Era Cristã quem "inventaram" o nome Jeová, inserindo no tetragrama as vogais de Elohim e Adonai. Como o Y não existe no latim, estas letras foram substituída por I ou J. Assim, o tetragrammaton se tornou o nome latino Jeová (JeHoWaH). A própria Torre de Vigia admite em seu apêndice na TNM de que a pronúncia mais aceita como correta entre os linguistas é Iavé, e não Jeová. Por isso, ela não restaurou nada e nem precisa Deus que alguém divulgue esse nome, que era simplesmente a forma como ele se apresentava ao mundo judeu, repleto de deuses falsos. O nome pelo qual Deus se apresenta aos cristãos é Jesus (Fp 2:9-11; Jo 5:23)

O verdadeiro significado

    Finalmente, vamos entender o verdadeiro significado dessa passagem. Esse texto isoladamente não pode ser corretamente compreendido sem o seu contexto, que se encontra nos dois versos seguintes. Vejamos os três versículos como se encontram na Nova Versão Transformadora (NVT):

v.10: O nome do SENHOR é fortaleza segura; o justo corre para ele e fica protegido.

v.11: O rico vê sua riqueza como uma cidade fortificada; imagina que é uma muralha alta e segura.

v.12: A arrogância precede a destruição; a humildade precede a honra. 

     Mattew Henry, teólogo do século XVI diz em seu "Comentário Bíblico Conciso" que o "poder divino, dado a conhecer em e através de nosso Senhor Jesus Cristo, forma uma torre forte para o crente, que confia no Senhor." Isso está correto, pois como vimos o nome pelo qual seremos salvos se tornou Jesus. O versículo expressa o caráter de Deus como um salvador fiel e isso é enfatizado pelo fato de que na cultura hebraica o nome não era uma simples designação, mas a expressão do caráter de alguém, como diz o Dr. R. C. Sproul. Logo, o que vemos aqui é o nome pactual de Deus como prova de que ele é o salvador de seu povo, aquele coloca em um lugar "inacessivelmente alto" os que nele se refugiam, o que é a tradução literal do termo traduzido como torre.

    É nesse contexto que encontramos no versículo 11 um claro contraste com o versículo 10. Somos advertidos de que confiar nas riquezas é tolice e equivale a estar protegido por uma muralha imaginária, não uma torre inacessível como é a segurança e a salvação de Deus em Cristo Jesus. Novamente, Mattew Henry comenta: "Quão enganosa é a defesa do rico, que tem sua porção e tesouro neste mundo! É uma cidade forte e um muro alto apenas em sua própria presunção; pois falhará quando mais precisar. Eles serão expostos à justa ira daquele Juiz a quem eles desprezavam como Salvador."

    No versículo 12 temos a conclusão: a soberba vem antes da derrocada, o homem que confia em si mesmo de forma arrogante perceberá que as muralhas construídas com seu poder financeiro são apenas ilusórias e que verdadeira salvação vem de Deus. Assim como o orgulho precede a queda, a humildade precede a honra, e Salomão fará diversas vezes essa comparação no livro de Provérbios (por exemplo em Pv 11:2; 15:33; 16:18)

Conclusão

    O texto em análise não diz que devemos usar o nome Jeová ou clamar por ele para obtermos salvação, embora não seja errado citar esse nome ao se referir a Deus no contexto do Antigo Testamento. Porém, no Novo Testamento Jesus é o nome deixado para que sejamos salvos, e Paulo deixa claro essa verdade por fazer uma conexão entre o texto do profeta Joel com a realidade da igreja na nova dispensação. O nome de Deus, entendido como o seu caráter salvador, é conhecido por todos os cristãos e não apenas pelas Testemunhas de Jeová. Esses cristãos, de qualquer denominação religiosa, confiam no poder salvador de Deus e na sua maneira de dirigir os assuntos, especialmente após a Reforma Protestante, quando as doutrinas da graça foram restabelecidas ao seu papel central e mais tarde tão bem estudadas por homens como João Calvino. Já o nome literal de Deus não precisa ser resgatado por ninguém e fazê-lo contraria a vontade do Pai, que deseja toda honra e glória ao Filho.

    As afirmações da organização das Testemunhas de Jeová sobre esse texto não tem outro motivo senão o sectarismo e a doutrinação ideológica de seus membros, para que percebam o lugar em que estão como exclusivo canal de Deus. Então, se você realmente deseja a proteção que vem do nome de Deus o que é necessário fazer? Primeiro você precisa abrir os olhos para as Escrituras, pedir a Jesus a ajuda do Espírito Santo para entende-las e jamais fazer do estudo uma busca por justificativas para os ensinos errôneos da Torre de Vigia. Acima de tudo, confessar a Cristo como seu Senhor e Salvador, não um mero anjo, mas Emanuel, o Deus conosco, o único e verdadeiro Deus que se fez carne para nos salvar. Invoque o nome do Senhor Jesus Cristo como seu Deus e Salvador e você verá a verdadeira torre forte do nome que faz até os demônios estremecerem.

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