A primeira vez em uma igreja


    Frequentar uma igreja cristã é um dos maiores desafios na vida daqueles que foram membros de organizações religiosas de alto  controle, e quanto maior o tempo vivido lá, maior é a resistência a isso. Neste artigo, veremos o que é preciso ter em mente antes de dar esse passo — e não menos importante, se precisamos dar esse passo —, ao mesmo tempo em que traremos esclarecimentos sobre algumas das falácias que existem sobre o assunto.

O QUE É A IGREJA

    Especialmente no caso de ex-membros das Testemunhas de Jeová, parece haver um dificuldade em entender o que de fato é a Igreja. A primeira menção a Igreja no Novo Testamento sai da boca do próprio Senhor Jesus: "E eu também te digo que tu és Pedro, e sobre esta rocha eu edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." — Mt 16:18 (BKJ). A palavra grega para Igreja é ekklesia, cujo significado mais elementar é a "reunião de pessoas fora de seus lares, em algum lugar público, assembleia" (G01577 Strong). Portanto, diferente dos que a associam a templos, em seu original a palavra Igreja nada tem a ver com o prédio em que essas pessoas se reúnem, senão em seu sentido contemporâneo, mas é a própria reunião de pessoas ao redor de Cristo para o adorar. Templo é o nome dado a qualquer local de reunião de pessoas com propósitos de adoração religiosa, assim como estacionamento é o nome dado ao local onde se colocam carros. Deus não habita em tais locais, como os motoristas não moram no estacionamento, mas é na reunião de pessoas que o Espírito Santo tem a oportunidade de atuar no coletivo, na comunhão dos santos.

    É interessante fazer uma breve nota histórica. Quando Jesus disse as palavras acima ele estava se referindo à Igreja que surgiria a partir de Atos 2, com a descida do Espírito Santo, o prometido consolador. Essa Igreja, ou seja, essa reunião de adoradores em torno da pessoa de Cristo, mais tarde seria chamada por Inácio de Antioquia de "católica", junção de duas palavras gregas, kata (junto) e holos (todos), trazendo a ideia de algo universal. Foi somente quando a Igreja se associou a Roma, no século IV, que ela passou oficialmente a se chamar de Igreja Católica Apostólica Romana. Essa associação não foi de todo ruim, uma vez que levou a um período de paz que propiciou a propagação do conhecimento acerca de Cristo por todo o vasto império romano. Claro que, com o tempo, a Igreja se corrompeu, e a cobrança de indulgências acabou levando à Reforma Protestante, mas essa é uma longa história. O importante aqui é entender como a Igreja surge e o que ela realmente é, e nesse sentido podemos falar em duas Igrejas: a visível, composta por pessoas que professam o cristianismo nas mais diferentes denominações, e a invisível, composta dos verdadeiros cristãos, os que foram escolhidos para a salvação — e estes não podemos dizer quem realmente são. Também compõe essa igreja universal ou católica, todos os adoradores verdadeiros que já faleceram, em todas as épocas.

A COMUNHÃO DOS SANTOS

    É o nome dado à reunião dos crentes em Cristo (At 2:42) através de uma vida comunitária, lembrando que este ato de se reunir é o que define a Igreja. No início essas reuniões se davam em casas de outros cristãos e nessas ocasiões era pregada a palavra, com pessoas vindo das vizinhanças para ouvir. Também se partia o pão, tomava-se o vinho e recolhia-se doações para os necessitados ou para ajudar a manter outros no trabalho, como ocorreu com Paulo (2Co 2:8, 9). O autor de Hebreus, que não é conhecido, deixa claro aos cristãos que existe a necessidade de se reunir — e tanto mais quanto vemos chegar o dia do encontro com Cristo, quer através de sua segunda vinda ou de nossa morte (He 10:24, 25). Com o tempo a Igreja cresceu, e o número dos que professavam a Cristo rapidamente ascendeu aos muitos milhares, em parte pela associação com Roma. Logo, era necessário que se construíssem lugares maiores para comportar o público crescente, e com isso a ideia de Igreja (reunião) acabou sendo indevidamente associada por muitos ao local onde essa reunião ocorria.

    Hoje não é diferente e muitos torcem o nariz para se reunir em um prédio específico para esse fim, mas aceitam reunir-se em casas. Ao fazer isso ou desejam que o evangelho não progrida, e fiquem para sempre num pequeno grupo, ou ignoram que o crescimento levará inevitavelmente à necessidade de um prédio maior, um CNPJ, cumprimento de normas concernentes a segurança contra incêndio, lotação e etc. 

    Além disso, reunir-se em casas também exige que haja alguma liderança e organização, estruturadas nos moldes do que é delineado pelo Novo Testamento. Assim, essa visão preconceituosa quanto à Igreja como entidade legalmente constituída é também um tanto hipócrita e contraditória. 

EXPECTATIVAS CORRETAS

RECEPÇÃO

    Ter uma expectativa correta evita decepções. As seitas bombardeiam os recém chegados com sorrisos e abraços, pois estão interessadas em tornar o visitante em um novo membro. Ter um estudo bíblico é motivo de status em uma organização desse tipo, e se a pessoa conduzi-lo ao batismo, mais ainda. Mas nas denominações cristãs isso não existe, então as pessoas agem normalmente, conforme sua própria personalidade. Muitas estão lutando com seus próprios problemas, outras são mais retraídas, enquanto outras podem ser bem receptivas. Mas é só com o tempo que você poderá desenvolver amizades, conhecer as batalhas de cada um e sentir o amor.

    Para um ex-membro de uma seita tudo é novo, assustador e, muitas vezes, errado aos seus próprios olhos. Não estamos acostumados pessoas falando "amém" durante as orações ou elevando as mãos para cima ou ao coração, enquanto cantam emocionadas durante um louvor; aliás, dependendo do grupo ao qual estivemos associados, sequer estamos acostumados a uma música ao vivo durante uma reunião religiosa, ainda mais com guitarras, baixo e bateria. Essas ferramentas ajudam as pessoas a deixar aflorar seus sentimentos e realmente adorar a Jesus.

DÍZIMOS E OFERTAS

    Outro ponto que alguns torcem o nariz diz respeito aos dízimos e ofertas. A maioria acha errado que pastores recebam salários, pois assim aprenderam, mas se esquecem de que o próprio apóstolo Paulo fez uso de ajuda financeira provida pelas igrejas do primeiro século. Além disso, não dá para comparar um ancião das Testemunhas de Jeová com um pastor formado em seminário ao longo de 4 anos e dedicado em tempo integral à sua igreja local, como acontece nas denominações mais sérias e tradicionais. E, como alguém que foi ancião, que cursou escola para anciãos, e que posteriormente também cursou teologia, tenho alguma bagagem para falar em termos comparativos. Mas, além de arcar com os custos do funcionamento do local de culto, os dízimos funcionam como uma ferramenta de ensino das mais eficazes: por meio deles, os crentes são confrontados com o fato de muitas vezes amarem o dinheiro sem nunca terem percebido, e com o tempo aprendem a desapegar-se dele e a desenvolver confiança em Deus. Embora não seja uma obrigação bíblica, no sentido de um mandamento presente no Novo Testamento, é uma obrigação moral ajudar a bancar o local onde se frequenta e a promover o evangelho por meio de suas atividades locais ou de ações da denominação.

DRESS CODE

    Se uma denominação tem regras rígidas sobre vestimenta é um sinal de alerta de que pode não ser uma denominação sadia, mas legalista. Por outro lado, alguns podem achar estranho mulheres usando calça jeans ou um vestido um pouco mais curto do que seria comum em uma seita ou em denominações mais legalistas, bem como homens com camiseta, barba longa e tatuagens. Essa diversidade, que reflete a beleza do evangelho "para todas as pessoas", pode exigir algum esforço por parte do visitante, que talvez ache difícil separar a aparência da fé. Nas denominações saudáveis impera o bom senso e a liberdade de consciência cristã, a menos, claro, que a vestimenta de alguém extrapole esse bom senso. Por isso, não se assuste se ver uma mulher vestindo calças ler um texto da Bíblia e conduzir o louvor.

PECADORES POR TODA PARTE

    Por fim, lembre-se de que a igreja é um local para pecadores, por isso há um lugar nela para você. Não são os que se consideram justos que procuram uma igreja, nem aqueles que acham que por fazer o bem são "pessoas boas", essas, aliás, são justamente as que dizem para você ficar em casa! Quem procura uma igreja são pessoas que reconhecem que necessitam de Cristo, do seu perdão, da sua ajuda e de sua salvação. Sempre haverá pecado e imperfeição dentro da igreja, mas o fato de ser uma igreja cristã significa que há cristãos de verdade, pessoas genuinamente convertidas e, para essas, é muito mais difícil ceder a certos pecados. Expor-se a vida em comunidade significa expor nossas próprias imperfeições e sentir na pele a imperfeição de outros. Isso nos ajuda a sermos moldados ao caráter de Cristo.

O GRANDE DIA

    Depois de trabalhar todos esses pontos em sua mente e se preparar para esse passo, enfim chega o grande dia. Se você já assistiu a algumas reuniões online da Igreja que deseja visitar, o que é altamente recomendado, vai ser interessante ver pessoalmente as pessoas que você viu através da internet. Especialmente para os mais tímidos, caminhar em direção àquele prédio cheio de pessoas desconhecidas pode ser um tanto desafiador e é preciso lutar contra pensamentos negativos, que podem fazer com que você crie fantasias e acredite nelas, tais como imaginar que todos estão olhando para você, que sua vestimenta ou aparência é inapropriada ou que talvez não devesse ter ido. É provável que você receba os cumprimentos daqueles que ficam na recepção, encontre um lugar e fique por ali sem ser incomodado(a).

    Falando sobre a experiência que eu, e possivelmente você, leitor, compartilhamos: em um salão do reino das Testemunhas de Jeová visitas de própria iniciativa não são muito comuns. Na maioria das vezes os visitantes são pessoas que foram contatadas na pregação de casa em casa ou que já estão estudando com alguém da denominação. Mas, nas igrejas cristãs, é exatamente o oposto: as pessoas é que voluntariamente decidem ir até elas, o que me lembra do texto de João 6.44 " Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o trouxer;" Portanto, não se preocupe, você é apenas mais um dos muitos visitantes que as Igrejas recebem constantemente, ninguém estará realmente olhando para você como se fosse um alien.

    Depois de tomar um lugar, — e eu sei que você provavelmente escolherá aquele cantinho à direita e mais atrás, próximo da saída —, o que você deve esperar? Bem, isso depende muito da cultura local, mas como eu já mencionei, não espere uma bomba de amor. Talvez algumas pessoas venham cumprimentar, outras apenas acenem ou sorriam. A liturgia do culto também dependerá de qual denominação você está visitando, mas em comum elas devem ter um tempo de louvor com música ao vivo, inferior a metade do tempo total do culto. Um espaço para comunicados, e muitos momentos de oração por motivos diversos. Em algum momento deve haver algum incentivo para dízimos e ofertas, possivelmente embalado por algum louvor. Em alguns lugares e em datas específicas, pode haver a apresentação de um coral, normalmente no mesmo dia da ceia. 

    A mensagem é a parte principal do culto, e deve ser cristocêntrica. Isso significa que toda a mensagem deve girar em torno de Cristo e do evangelho. Nada de "fazer mais para Jeová", de falar sobre a própria organização religiosa, sobre sua liderança ou coisas do tipo. É feita a exposição de um texto bíblico e todo o assunto nele esmiuçado durante a pregação, com alguma aplicação prática em seguida. É isso, a exposição da Bíblia, a exposição ao evangelho e esse aprofundamento e aplicação prática, que nos tornam melhores cristãos, pessoais mais parecidas com o Senhor. Mais um motivo que torna a vida em Igreja essencial.

UMA PALAVRA SOBRE A CEIA

    A ceia é normalmente realizada uma vez por mês ou a cada 15 dias, na maioria dos lugares. Em geral, se compreende que a periodicidade anual não é apropriada (os primeiros cristão a faziam semanalmente), então esses períodos menores são adotados. O culto da ceia costuma ser chamado de "culto solene". Existe algumas diferenças de pensamento sobre quem pode participar do pão e do vinho, mas normalmente é preciso que a pessoa seja um cristão convertido e batizado em qualquer denominação cristã que não seja considerada uma seita. O batismo é a marca de que a pessoa se tornou parte do corpo místico de Cristo, de sua Igreja universal, e por isso é um requisito para que a pessoa possa participar da ceia. Isso significa que, para as ex-Testemunhas de Jeová, tomar do vinho e comer do pão não é algo que estará imediatamente disponível.

INCENTIVO

    Assistir a um culto em uma denominação cristã é um passo incrível, mas desafiador. Podemos ficar ansiosos, com medo de estarmos fazendo algo errado ou então assumirmos uma posição defensiva e vermos tudo sob uma ótica demasiadamente crítica. Cada um terá seus próprios desafios, incluindo aqueles relativos à sua própria personalidade, mas é preciso vencê-los. O resultado é poder participar da construção desse tecido social que é o cristianismo, uma vida em comunidade, com todos os seus problemas e benefícios, mas ainda assim um tão necessário tecido que nos permite sermos mais parecidos com Cristo. Por meio desse tecido social nós ajudamos outros que compartilham da mesma fé, ajudamos pessoas descrentes da comunidade, e somos ajudados. Meu desejo sincero é que você participe desse tecido social, que é uma verdadeira colcha de retalhos feita por pessoas de todos os tipos, mas tão imperfeitas como você.

    Que esse tecido de fé costurado com as linhas do amor e tingido pelo sangue de Cristo possa compor as brancas vestes que te apresentarão diante de nosso Pai.

Leitura recomendada: Igreja é Essencial, de Collin Hansen e Jonathan Leeman. Adquira aqui: https://amzn.to/40k8WTO 

BIBLIOGRAFIA

HANSEN, C.; LEEMAN, J.; DA GUIA OLIVEIRA, J. P. A. Igreja é essencial: redescobrindo a importância do corpo de Cristo. [s.l.] Editora Fiel, 19 outubro 2021.



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