A chacina de Hamburgo: o que sabemos e o que aprendemos

Serviços de emergência no Salão do Reino das Testemunhas de Jeová em Hamburgo

    Na quinta-feira, 09 de março de 2023, o mundo foi surpreendido pelo assassinato em massa de fiéis das Testemunhas de Jeová que se reuniam pacificamente em um salão do reino localizado na rua Deelböge, no distrito de Alsterdorf, bairro GrossBorstel, na cidade de Hamburgo, Alemanha. Recebemos com imenso pesar essa notícia. Nada justifica a agressão violenta, ainda que em palavras, e muito menos em ações mortais como essas. Preciso dizer que meus mais sentimentos e orações estão com as famílias das vítimas e toda a comunidade local que certamente se encontra em choque pela gravidade dos eventos. Mas, afinal, o que já sabemos sobre o ocorrido e o que podemos discutir sobre esse assunto?

O CRIME

    Era por volta das 09 da noite, horário local, quando um homem armado com uma pistola acessa a área externa do prédio e, através da janela, dispara contra um grupo de fiéis que ainda se encontrava no local após o término de uma reunião. Antes disso, no estacionamento, atira em uma senhora que deixara a reunião. Felizmente ela sobrevive sem maiores ferimentos. Após algumas seções de tiros e re-municiamento, uma unidade de operações especiais que estava perto do local chegou, poucos minutos depois de receber a primeira chamada de emergência, disse o principal oficial de segurança de Hamburgo. Ao perceber a chegada dos policiais o assassino se evadiu para o andar seguinte onde se matou, deixando um saldo atual de 7 mortos e muitos feridos, alguns em estado grave.

O ASSASSINO

  O criminoso atirador de Hamburgo foi identificado pela polícia como sendo Phillip Fusz, um ex-membro da religião. Fusz era um cidadão alemão que nasceu em 18 de setembro de 1987 em Memmingen, mas cresceu na cidade bávara de Kempten, cidades a oeste e a sudoeste de Munique, respectivamente. Ele relata que cresceu em "uma família evangélica estritamente religiosa", segundo descrição contida em seu próprio site profissional — local em que se apresentava como consultor empresarial, cobrando valores exorbitantes por seu serviço.

    Fusz foi educado em Munique. Ele possui um Bacharelado em Comunicação de Negócios Internacionais e um Mestrado em Administração de Empresas, nível educacional incomum entre as Testemunhas de Jeová, que são desencorajadas a buscar o ensino superior, mas, em vez disso, incentivadas a buscarem um ofício qualquer e se concentrarem na carreira de pioneiro (pregação em tempo integral).

    Na sua vida privada, Fusz dizia gostar de “ser ativo e multicultural, de preferência num ambiente soalheiro perto da água”. Ele era torcedor do Liverpool Football Club e os viu jogar ao vivo pela primeira vez em 2007, em Anfield Road, na Inglaterra.

    Segundo a polícia, Fusz possuía legalmente uma pistola semiautomática Heckler & Koch P30. Ele disparou mais de 100 tiros durante o ataque, mas centenas de munições foram encontradas em seu apartamento, de acordo com o chefe do escritório do promotor de Hamburgo, Ralf Peter Anders. O chefe da polícia de Hamburgo, Ralf Martin Meyer, conta que o autor dos disparos fora recentemente visitado por policiais depois que eles receberam uma denúncia anônima em janeiro, alegando que ele tinha “uma raiva particular contra crentes religiosos, em especial contra as Testemunhas de Jeová e seu ex-empregador”. Ainda de acordo com os policiais, Fusz se mostrou colaborativo e foi admoestado a manter a pistola guardada em um local seguro, como requer a legislação alemã. Como nada de ilegal foi encontrado, os policiais foram embora sem retirar-lhe a arma.

    “O ponto principal é que uma denúncia anônima na qual alguém diz estar preocupado que uma pessoa possa ter uma doença psicológica não é em si uma base para (tais) medidas”, disse Meyer.

   O assassino também é autor de um livro recentemente publicado (dezembro de 2022, ISBN-13 9781915852885, ISBN-10 1915852889, 306 páginas) "The Truth About God, Jesus Christ and Satan : A New Reflected View of Epochal Dimensions" (A verdade sobre Deus, Jesus Cristo e Satanás: uma nova visão refletida das dimensões da época"), onde parece indicar que acredita que um desequilíbrio nos domínios espirituais está em andamento. Em seu livro, afirmou que teve “sonhos proféticos” na infância: “De repente, houve uma compreensão das Escrituras que não existia antes”, escreveu ele. Falando sobre si mesmo na terceira pessoa, ele disse: “O autor passou por uma jornada pessoal pelo inferno que durou mais de três anos”.A descrição do livro diz, em parte:

Ao contrário da crença popular, Deus, Jesus Cristo e Satanás não são seres abstratos no céu. Não, ao contrário, estamos lidando com seres espirituais muito poderosos que têm sentimentos, assim como nós, humanos, e, portanto, também agem parcialmente impulsivamente devido aos sentimentos. Os sinais dos tempos e a atual situação mundial apontam para um certo desequilíbrio, não só na nossa sociedade.

    Jason Wynne, pesquisador de assuntos sobre as Testemunhas de Jeová, escreve: "É bem possível que Fusz sofria de megalomania. Ele se via como muito mais importante e poderoso do que realmente era. Ele viu seu livro como uma obra histórica que é leitura obrigatória para líderes e várias ciências. Ele também exigiu uma taxa diária de € 250.000 como consultor de gestão, excluindo impostos. Como ele mesmo disse, “A taxa incorpora o fato de que meu trabalho deve gerar uma alavancagem ou valor agregado de pelo menos 2,5 milhões de euros”."

    Segundo, Introvigne (2023), tradicional defensor das Testemunhas de Jeová, Fusz apresentou em seu livro supostas "revelações que alegou ter recebido de anjos, Deus, Jesus Cristo e Satanás, resultando em uma forma idiossincrática de cristianismo crítico de todas as organizações religiosas existentes." Ainda, segundo o autor, "Fusz estava obcecado com o problema da prostituição e acreditava que a guerra atual era o castigo de Deus à Ucrânia por ter enviado seus profissionais do sexo para o exterior, inclusive para a Terra Santa."

DISCUSSÃO

    A chacina de Hamburg ocorre após pouco mais de 2 meses de outro crime bárbaro ocorrido em um salão do reino, onde um homem matou sua esposa em Denver, Colorado, nos EUA. Tanto neste país, como na Alemanha, episódios trágicos envolvendo atiradores têm se tornado comuns, levantando questões sobre o acesso a armas por pessoas mentalmente instáveis. Embora uma parte da imprensa (brasileira, em especial) esteja tratando o caso como intolerância religiosa, as evidências até aqui apontam para algo mais complexo.

      A denúncia anônima efetuada em janeiro contra o autor indica que ele poderia sofrer de transtornos psiquiátricos, o que aliado a seu ódio contra religiosos em geral, gerou a mistura explosiva que culminou nessa tragédia. Esse parece ser o ponto de equilíbrio da equação.

    Quando olhamos para os muitos relatos de chacinas ocorridos em escolas nos EUA, o bullying parece ser a principal força motriz por trás de boa parte dos episódios (Diosti, 2022). Lidar com o sentimento de rejeição em uma sociedade cada vez mais conectada, e que mede o sucesso em número de likes e seguidores, se torna uma tarefa bastante pesada. Se é difícil para adolescentes, que dizer para adultos que adicionam às suas preocupações as lutas diárias e desafios para obter seu sustento material? Muitas pessoas, ao deixarem um grupo religioso, enfrentam rejeição da parte daqueles que continuam no grupo. As vezes, é apenas uma forma mesquinha que alguns encontram para punir o ex-membro, por se sentirem traídos pelo seu abandono. Outras, trata-se de algo sistemático, através da interpretação teológica do grupo, como é o caso das Testemunhas de Jeová¹, que entendem que os membros devem cortar o contato (ou reduzi-lo ao mínimo, no caso de familiares) com todo ex-membro da religião, independente do motivo de sua saída ter sido uma expulsão ou um desligamento voluntário. Nestes casos, até mesmo pensamentos suicídas podem ocorrer (Soriano, 2017).

    Essa "morte social" por decreto, pode causar imensa dor emocional e cada um a irá experimentar de maneiras e intensidades diferentes. Alguns podem sair relativamente ilesos; outros poderão se tornar depressivos e vingativos. Isso, portanto, é só uma parte da equação. Ninguém necessariamente encarará de forma positiva o que a religião considera como disciplina, tampouco ninguém será obrigado a encarar de forma negativa. As experiências acumuladas ao longo da vida, as tendências pessoais e o momento de cada um certamente tem um peso aqui.

    Corrobora com o ponto de vista deste blog um novo estudo de um pesquisador de estresse da Universidade de Zurique, que examinou, entre outras coisas, as Testemunhas de Jeová que deixam a religião. Ele chega à conclusão de que tal saída é um evento absolutamente estressante. Segundo Schaff (2023), "em certas fases da vida, uma comunidade próxima e fechada pode fornecer apoio e orientação. Você se sente em boas mãos, isso está criando significado. Mas se o espartilho ficar muito apertado, se você quiser sair, então torna-se difícil. Então, muitas pessoas também caem em dificuldades mentais. No entanto, para que uma ação de curto-circuito tão grave ocorra, provavelmente deve ter havido uma doença mental pré-existente." Por outro lado, para Christian Rossi (BLUE NEWS, 2023), do centro de aconselhamento Infosekta, "sempre há ex-Testemunhas de Jeová que tiram a própria vida depois de partirem porque não conseguem mais encontrar o caminho"

    Portanto, seria simplificar demais a questão dizer que a raiz de tudo está nos sentimentos feridos do atirador, ou em algum dano emocional causado pela religião — especialmente pelo desligamento desta. C. S. Lewis, um dos maiores autores cristãos do século XX, diz em sua obra "Cristianismo Puro e Simples" que o orgulho é o principal dos pecados. De fato, é por sentir-se importante demais, honrado demais, especial demais, é que muitos acabam desenvolvendo ódio por aqueles que lhes ferem os sentimentos de alguma maneira. O ego inflado coloca a pessoa em um patamar superior: "Como pode essa criatura inferior me questionar? Como podem fofocar a meu respeito? Dizer que não sou mais digno de fazer parte do grupo?" Mas, embora eu tenha usado inicialmente o termo ódio, por ser a expressão mais popular, o que está nas entrelinhas do ego inflado e das perguntas acima é o nojo. Esse é o mais perigoso dos sentimentos pois, como as perguntas mostram, ele resulta em uma completa repulsa para com outros. A desumanização e objetificação do outro é o primeiro passo para uma atitude extrema. "Ao ter reduzida a capacidade de se conectar com os outros, [os sociopatas] criam uma divisão clara entre eles e o resto, a quem objetificam em diferentes níveis, já que emocionalmente não existe conexão" (Núñes, 2022).

    Vivemos em uma sociedade fragmentada, polarizada, onde o diálogo se torna progressivamente mais difícil e onde o nosso ego é inflado constantemente, estimulado pela busca do sucesso a qualquer custo, em um mundo altamente competitivo, onde já não há espaço para perdedores. Esse já é um cenário desafiador para qualquer um de nós, e não precisamos de pesos adicionais. Nesse sentido, a prática do ostracismo — o afastamento sistemático de pessoas do convívio social —, precisa acabar. É urgente que esse tema seja discutido pela sociedade antes que mais atiradores de Hamburgo surjam, impulsionados por transtornos psiquiátricos e por uma dificuldade pessoal em lidar com a rejeição. 

    A interpretação de algumas denominações nesse assunto, bem como a insensibilidade de alguns religiosos de todo espectro, tem feito com que muitas pessoas se revoltem contra a religião organizada, razão do crescimento do número de desigrejados², pessoas que se declaram cristãs mas que não frequentam nenhuma denominação religiosa. Nesse blog, acreditamos que esse não é o melhor caminho. O cristianismo é uma experiência de vida em sociedade, onde pessoas que compartilham a mesma fé e valores se reúnem e desenvolvem laços fraternais. Se você enfrenta sentimentos negativos em razão do abandono de uma denominação religiosa (qualquer que seja ela), tais como angústia e depressão, procure ajuda especializada e se abra com pessoas de confiança. Tenho certeza de que você pode vencer essa fase ruim e iniciar uma nova e fascinante fase de sua vida.

    As informações mais recentes são de que promotores alemães estariam investigando se havia um motivo religioso para o crime, mas que não havia indícios de que o assassino estivesse envolvido em qualquer rede ou tivesse visões de extrema-direita. Todos os feridos recuperam-se fora de perigo, e uma cerimônia ecumênica foi realizada em prol das vítimas. As Testemunhas, por encarar as demais denominações como falsas, realizaram seu próprio ato fúnebre.

- - -

¹ Este blog respeita a interpretação das Testemunhas de Jeová sobre esse assunto, entende como parte de sua liberdade de crença, no entanto se reserva o direito de discordar respeitosamente.

² O termo desigrejado nesse contexto se refere à igreja como denominação cristã. O desigrejado, portanto, não é aquele que não faz parte do corpo místico de Cristo, mas sim aquele que mesmo fazendo não se associa a nenhum grupo organizado de adoração.

BIBLIOGRAFIA

WYNNE, J. The Hamburg Shooter. Disponível em: <https://avoidjw.org/news/hamburg-shooter/>. Acesso em: 1 abr. 2023.

PIETRO DE CRISTOFARO, G. M. German gunman kills 6 at Hamburg Jehovah’s Witness hall. Disponível em: <https://apnews.com/article/germany-jehovahs-witnesses-shooting-hamburg-1c47b13f7ec803a218d02780934978fe>. Acesso em: 1 abr. 2023.

SCHAAF, J. Attentat in Hamburg: Zeugen Jehovas üben Druck auf Mitglieder aus. Disponível em: <https://www.faz.net/aktuell/gesellschaft/menschen/attentat-in-hamburg-zeugen-jehovas-ueben-druck-auf-mitglieder-aus-18740104.html>. Acesso em: 2 abr. 2023.

INTROVIGNE, M. Blaming the Victims: The Hamburg Shooting and the Jehovah’s Witnesses. Disponível em: <https://bitterwinter.org/the-hamburg-shooting-and-the-jehovahs-witnesses/>. Acesso em: 2 abr. 2023.

MINUTO, N. AO. EUA. Homem mata a esposa e tira a própria vida no Colorado. Disponível em: <https://www.noticiasaominuto.com/mundo/2139776/eua-homem-mata-a-esposa-e-depois-tira-a-sua-propria-vida-no-colorado>. Acesso em: 1 abr. 2023.

RFI. Tiroteio num local de culto de Testemunhas de Jeová faz vários mortos em Hamburgo. Disponível em: <https://www.rfi.fr/pt/mundo/20230310-tiroteio-num-local-de-culto-de-testeminhas-de-jeov%C3%A1-faz-v%C3%A1rios-mortos-em-hamburgo>. Acesso em: 1 abr. 2023.

DIOSTI, G. Rejeição e bullying são as principais motivações de um atirador ativo. Disponível em: <https://gdconteudomedico.com.br/release/rejeicao-e-bullying-sao-as-principais-motivacoes-de-um-atirador-ativo/>. Acesso em: 1 abr. 2023.

BLUE NEWS. Chi ne fa parte viene salvato, chi abbandona viene ostracizzato. Disponível em: <https://www.bluewin.ch/it/attualita/svizzera/chi-ne-fa-parte-viene-salvato-chi-abbandona-viene-ostracizzato-1660424.html>. Acesso em: 6 set. 2023.

WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Tiroteio em Hamburgo em 2023. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Tiroteio_em_Hamburgo_em_2023&oldid=65518356>.

DERBYSHIRE, V. As ex-testemunhas de Jeová rejeitadas pelas próprias famílias. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-40780269>. Acesso em: 1 abr. 2023.

NÚÑES, P. G. Inteligência maquiavélica: definição e características. Disponível em: <https://amenteemaravilhosa.com.br/inteligencia-maquiavelica/>. Acesso em: 1 abr. 2023.

Comentários