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| É a transfusão a rainha dos tratamentos médicos? |
Diante das constantes objeções e investidas que sofremos por parte dos que sustentam os dogmas das Testemunhas de Jeová, somos compelidos a responder a mais uma indagação que, de tão óbvia, para a maioria das pessoas simplesmente carece de sentido: afinal, pode o sangue salvar vidas? 🥴
Recentemente, recebemos um comentário em nosso canal que afirmava que "todo mundo sabe" que o sangue não salva vidas, e que a ciência teria supostamente comprovado isso. Na realidade, essa é a ideia que é passada dentro do grupo religioso, ao menos pela liderança local leiga em ciências médicas. Há muitos anos atrás cheguei a passar por um treinamento junto a um conceituado e querido médico, muito atuante na COLIH, e que hoje já se encontra falecido. Entre outras coisas, aprendemos mais a fundo sobre as frações sanguíneas e que, de fato, há condições médicas para as quais o sangue é a única opção terapêutica eficaz. Algumas condições médicas que frequentemente só podem ser tratadas de forma eficaz com transfusão sanguínea são (REIS, 2021):
- Hemorragia grave: quando há uma perda de sangue muito grande que coloca em risco a vida do paciente.
- Hemofilia: quando há um defeito na coagulação do sangue que causa sangramentos excessivos e dificuldade de estancá-los.
- Após transplante de medula ou de outros órgãos: quando há uma diminuição da produção de células sanguíneas pela medula óssea transplantada ou uma rejeição do órgão doado que causa anemia ou infecção.
- Problemas na medula óssea: quando há uma falha na produção de células sanguíneas pela medula óssea, como nas leucemias ou nas aplasias.
É imprescindível destacar que a prescrição de uma transfusão deve se basear em limites bem estabelecidos na literatura para a perda sanguínea aguda, que podem ser tão baixos quanto 7 g dL-¹, embora nem sempre isso ocorra (MURPHY et al., 2014), tendo o baço o papel de um reservatório importante de hemácias. Em situações de emergência, é crucial controlar o sangramento e evitar o choque hipovolêmico, sendo a reposição volêmica com cristaloide (solução de Ringer) uma alternativa de primeira linha. Todavia, se a massa eritrocitária estiver insuficiente para a perfusão tecidual adequada, a reposição volêmica isolada não será eficaz. Quando o hematócrito estiver abaixo do limiar crítico, não há tratamento substitutivo à transfusão de concentrado de hemácias para garantir o transporte de oxigênio aos tecidos, sendo improvável a regeneração espontânea.
Outra situação delicada é a transfusão fetal intrauterina, um procedimento médico que consiste em injetar sangue no feto por meio de uma punção do cordão umbilical guiada por ultrassom. Ela é indicada quando o feto tem anemia grave causada por uma incompatibilidade sanguínea entre a mãe e o bebê, geralmente envolvendo o sistema RhD. A transfusão pode salvar a vida do bebê e evitar complicações como hidropisia fetal e déficit neuromotor. Nestes casos pode haver um conflito entre as crenças da mãe, o direito à inviolabilidade de seu próprio corpo e consciência, e a necessidade de preservação da vida do feto. Como resolver a anemia do feto de forma segura, sem o uso de sangue?
O comentário que originou este artigo baseia-se em uma leitura equivocada e tendenciosa de artigos científicos. A diferença insignificante ou inexistente entre os grupos que receberam ou não uma transfusão não significa que as transfusões sejam ineficazes. Em 2011, os EUA realizaram 21 milhões de transfusões de sangue, um número excessivo que indica uma prescrição inadequada que pode até prejudicar a saúde dos pacientes. No entanto, quando indicados corretamente, os hemocomponentes são essenciais para salvar vidas. "A maioria das pessoas não presta atenção às diretrizes", diz Victor Ferraris, cirurgião cardiotorácico da Universidade de Kentucky, em Lexington. E isso pode ser particularmente verdadeiro quando as diretrizes parecem contradizer observações em primeira mão. "Os cirurgiões são muito, muito orientados para a experiência", diz Ferraris. "Todo cirurgião que já viveu já viu a vida de alguém salva por uma transfusão de sangue." (ANTHES, 2015)
Ainda, segundo a WHO (2015) — Organização Mundial da Saúde —, "O sangue é o presente mais precioso que alguém pode dar a outra pessoa – o dom da vida. A decisão de doar seu sangue pode salvar uma vida, ou mesmo várias, se o sangue for separado em seus componentes – glóbulos vermelhos, plaquetas e plasma – que podem ser usados individualmente para pacientes com condições específicas." Logo, resta evidenciado que a alegação formulada pelos adversários do nosso trabalho de que o sangue não possui eficácia terapêutica comprovada, não passa de uma falsidade sem qualquer respaldo na boa ciência.
CIRURGIAS E EMERGÊNCIAS
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| Uma máquina "Cell Saver" |
Nas cirurgias eletivas, o leque de opções costuma ser maior. É possível, por exemplo, utilizar a recuperação intraoperatória através de máquinas como o cell saver. Uma máquina cell saver é um sistema de autotransfusão intraoperatório que coleta, filtra e lava o sangue do campo cirúrgico para produzir sangue autólogo a ser transfundido de volta ao paciente. Este equipamento pode chegar a custar mais de 30 mil dólares (R$ 150 mil), o que explica a sua ausência em muitos hospitais. Algumas Testemunhas de Jeová podem se opor ao uso desse tipo de equipamento, uma vez que o sangue sai de seu corpo e é armazenado brevemente no interior da máquina, onde passa por processamento. O eletrocautério com coagulador por plasma de argônio também é uma opção, pois permite cortar tecidos e coagular vasos em seguida, evitando o sangramento. Ambas opções, todavia, não resolvem o problema de uma grave perda de hemácias devido a um acidente ou à própria enfermidade que acometeu o paciente.

Existe ainda a possibilidade de utilizar a eritropoetina (CARVALHO, 2010), uma glicoproteína que estimula a produção de eritrócitos na medula óssea. É mais comumente empregada em pacientes com insuficiência renal crônica ou neoplasias em tratamento quimioterápico. Conforme informações disponibilizadas pelo site BulasMed, uma embalagem contendo 20 frascos-ampola de 1 ml cada, com dosagem de 4000 UI, tem um custo próximo de R$ 3,5 mil reais. Cabe salientar que a EPO demanda um tempo para exercer sua ação, não produzindo resultados imediatos como erroneamente acreditam alguns indivíduos. É importante ressaltar também que muitas Testemunhas de Jeová desconhecem o fato de que a EPO contém em sua composição albumina humana, aspecto que poderia torná-la questionável para uma parcela significativa de adeptos dessa religião. Aceitar a EPO, por outro lado, levanta questões de natureza ética e moral, uma vez que as Testemunhas não doam sangue, mas podem fazer uso de hemoderivados humanos.
ASPECTOS BÍBLICOS
Como toda denominação religiosa, as Testemunhas de Jeová tem direito a exercer sua fé, crendo no que bem entenderem. E isso realmente deve ser assim, afinal não desejamos viver em um estado teocrático, que dita o que todos devem ou não acreditar, violando a consciência individual. Contudo, questionamos o leitor que pertence a religião sobre o que entendemos como incoerências na forma como a religião trata os assuntos médicos. A revista A Sentinela, de 15 de junho de 1968 diz em sua página 350 (grifos acrescentados): "Aqueles que se submetem a tais operações vivem às custas da carne de outro humano. Isso é canibalesco. Não obstante, ao permitir que o homem comesse carne animal, Jeová Deus não deu permissão para os humanos tentarem perpetuar suas vidas por receberem canibalescamente em seus corpos a carne humana, quer mastigada quer na forma de órgãos inteiros ou partes do corpo, retirados de outros."
Há pelo menos um caso documentado de uma pessoa que faleceu devido a rejeitar um transplante de órgãos, em conformidade com as orientações da Sociedade Torre de Vigia, o senhor Arvid Einar Mood. Falando sobre o caso, a filha da vítima relembra a posição de seus pais: "Eles acreditavam e confiavam na Torre de Vigia quando ela dizia que os transplantes eram canibalismo. Dois anos após a morte dos pais, a WTBTS [Sociedade Torre de Vigia] mudou de posição. Lembro-me de ler a mudança em 'Perguntas dos Leitores'. Lembro-me da sensação de enjoo no fundo do meu estômago enquanto lia aquelas palavras e tentava entender."
Mais uma vez, é preciso enfatizar que se trata de um direito de crença, e nós respeitamos isso. No entanto, esse caso mostra o perigo que interpretações bíblicas impostas de cima para baixo podem representar. Aquele casal idoso confiava na liderança de sua religião como legítimos representantes de Deus, e o resultado foi que aquele senhor pagou com a vida por recusar um tratamento que sua religião condenava. Todos devem encarar com cautela qualquer interpretação vinda de cima, transmitida como legítima e inquestionável vontade divina. Tragicamente, aquela filha testemunhou seu pai morrer em vão, por acreditar em uma suposta verdade que logo depois seria descartada pelos líderes da religião.
Não pretendo abordar com profundidade os aspectos bíblicos e os motivos pelos quais entendemos que as transfusões não violam a lei de Deus, pois há certamente farto material a respeito disponível na rede mundial de computadores. No entanto, é preciso lembrar que a orientação dada aos gentios em Atos 15:19, 20 tinha apenas a função de apaziguar uma situação surgida entre estes gentios e os cristãos convertidos do judaísmo, que ainda se encontravam apegados à lei e às tradições – não se tratava, portanto, de uma regra geral a que todos os cristãos deveriam se digladiar em discutir sua aplicação até as mínimas das mínimas frações sanguíneas, muito menos algo que alguém deveria ter o direito de interpretar e decidir por outros.
Outro aspecto importante diz respeito ao armazenamento do sangue, algo objetável para as Testemunhas de Jeová. A revista A Sentinela de 01 de março de 1989 pág. 30 diz que a lei registrada em Levítico 17:13 “claramente torna proibido certo uso comum de sangue autólogo — a coleta pré-operatória, o armazenamento e posterior infusão do sangue do próprio paciente” (grifo acrescentado). No entanto, o primeiro concílio apostólico apenas deliberou sobre a necessidade de se abster do sangue, e não reeditou todos os decretos mosaicos sobre o uso do sangue. Isso significa que o argumento baseado em Levítico de que o sangue não pode ser armazenado parece bem incorreto e nada prudente. Porém, na Sentinela de 15 de outubro de 2000, pág. 31 em "Perguntas a considerar", a regra que era clara – e que portanto toda Testemunha de Jeová tinha obrigação de obedecer – já não era mais tão clara assim. Depois de uma longa deliberação, o artigo sugere sutilmente em suas últimas linhas que esse é um assunto de consciência. O artigo diz (grifos acrescentados):
Se parte de meu sangue vai ser desviada de meu corpo, com a possibilidade do fluxo ser interrompido por um tempo, será que minha consciência me permitirá encarar esse sangue ainda como parte de mim, não exigindo assim que ele seja ‘derramado no solo’?
Minha consciência treinada pela Bíblia ficaria perturbada se durante um procedimento diagnóstico ou terapêutico, parte de meu próprio sangue fosse retirada, modificada e reintroduzida (ou aplicada) em meu corpo?
Observamos que, ainda que o artigo não trate especificamente do armazenamento do sangue, ele menciona a possibilidade de interrupção do fluxo sanguíneo para fora do corpo, ficando evidentemente estocado em algum equipamento ou dispositivo por um intervalo, inclusive sofrendo algum tipo de processamento antes da reintrodução. Assim, temos em vigor nas doutrinas dessa religião tanto uma norma levítica contra o uso externo do sangue, quanto uma permissão de se admitir que o sangue fique estocado e sendo processado em algum aparelho por um determinado período, normas que reputamos como incoerentes, afinal não há uma lógica difusa aqui: o sangue pode ou não pode ser estocado, independentemente do local e do tempo, não há meio termo. Essa é a questão que se coloca sobre como compreendemos a aplicabilidade da lei mosaica na atualidade.
DISCUSSÃO
É evidente que a transfusão sanguínea tem um papel fulcral na preservação da vida humana. As alternativas existentes são primariamente complementares e não substituem o tratamento padrão para todas as condições clínicas. Em situações emergenciais que requerem aumento rápido da taxa de hematócrito para garantir a perfusão tecidual adequada e evitar a falência de múltiplos órgãos, a transfusão sanguínea é o único meio capaz de preservar a vida do paciente.
As opções de "tratamento alternativo" não são amplamente disponibilizadas e, em muitos casos, não são financeiramente acessíveis para grande parte dos seguidores da religião em questão. Além disso, muitos deles não recebem assistência financeira da instituição religiosa para custear despesas médicas em instituições hospitalares ou clínicas particulares recomendadas pela Comissão de Ligação com Hospitais. O paciente de menor condição financeira é colocado em uma posição desfavorável, uma vez que não pode contar com a possibilidade de arrecadar fundos através de "vaquinhas", prática que é vedada pela religião. Assim, ele se limita a buscar ajuda apenas dentro da congregação religiosa que frequenta ou por meio de pedidos individuais de doações, no âmbito da religião ou fora dele.
A presente exposição comprova que a transfusão sanguínea é, em variadas situações, fundamental para a preservação da vida, e que os tratamentos alternativos, além de não serem eficazes em muitos casos, submetem o paciente a dificuldades adicionais, como a necessidade de se deslocar para outras cidades a fim de receber tratamento em hospitais com médicos dispostos a colaborar ou a ansiedades relacionadas aos custos do tratamento.
É importante salientar que as Testemunhas de Jeová contam com um programa altamente elogiável, o GVP - Grupo de Visitas a Pacientes, que oferece suporte espiritual e prático a pacientes hospitalizados sem a presença de seus familiares. No entanto, esse programa não resolve a questão principal, que é a falta de recursos financeiros para o tratamento alternativo que, se rejeitado, pode levar à dissociação do religioso enfermo e todas as suas consequências, como a limitação de contato com outros familiares pertencentes à religião e a exclusão total de contato com outras Testemunhas de Jeová, prática essa que tem sido rotulada de ostracismo.
Embora discordemos da abordagem dada pela religião aos pacientes que optam por receber transfusões de sangue, bem como de sua doutrina em relação ao sangue (um direito constitucional), respeitamos o direito da religião e de seus membros de professar e disseminar essas crenças. É ainda essencial lembrar que os direitos individuais de cada paciente, incluindo a recusa a certos tratamentos, devem ser preservados e que as opções de tratamento adequadas devem ser disponibilizadas a todos os pacientes, independentemente de suas crenças religiosas ou de sua capacidade financeira.
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BIBLIOGRAFIA
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SOCIEDADE TORRE DE VIGIA. Perguntas dos leitores — BIBLIOTECA ON-LINE da Torre de Vigia. A Sentinela, 15 nov. 2000. Disponível em: https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/2000767 (Acessado: 24 de abril de 2023).
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